Parte 20

Eu não sou gay…mas

Fiquei olhando os dois levantarem do sofá, afobados.
– Biel…não é o que você ta pensando…
O Kadu falou com nervosismo.
– Claro que não.
Eu respondi seco, indo para o meu quarto.
Peguei a minha mochila e comecei a colocar algumas roupas e pertences, com raiva e nojo da cena que eu tinha presenciado na sala. Eu sabia que no fundo eu não tinha direito algum de me sentir assim , mas eu me sentia. Eu nem conseguia pensar com clareza, a única coisa que eu queria era sair dali o mais rápido possível.
– O que você ta fazendo, Biel?
Ele me perguntou, parado na soleira da porta. Olhei com um olhar fulminante e respondi seco:
– Eu vou embora.
– Embora??? Do que você está falando? Por que??
– Porque? Porque eu não preciso chegar em casa e dar de cara com você e um outro semi nus abraçados no sofá. Se você ta trazendo caras pra cá, não tem mais lugar pra mim aqui.
Eu disse, indo até o armário pegar algumas coisas.
– Não, você entendeu tudo errado. Não rolou nada. A gente chegou ensopado por causa do temporal que caiu e eu pus as roupas na secadora. Na espera a gente acabou dormindo. Foi só. Ele já até foi embora.
– Ah tá, Kadu. Você quer que eu acredite que não rolou nada nesse meio tempo? Nem um beijo, nem uns amassos?
– Não rolou, Biel. Eu to falando a verdade. Eu não ia quebrar nosso acordo. Eu sei que não foi nada feito formalmente, mas a gente nunca trouxe outras pessoas pra cá pra não causar desconforto, não é? Eu não iria mentir pra você.
Eu joguei as coisas em cima da cama e olhei bem pra ele.
– Não é de hoje que você ta mentindo pra mim. Vai ser melhor pra nós dois…isso já ta fugindo do controle.
Peguei a mochila e tentei passar por ele, mas ele se colocou na frente.
– Não! Por favor, não vai. O que ta acontecendo? Porque você ta reagindo assim?
Eu olhei pra ele, com raiva.
– Eu só não quero mais presenciar esse tipo de cena. Você pode ficar com quem você quiser, sou eu que to invadindo a sua privacidade. Sai da minha frente!
Eu disse empurrando-o
– Espera! Você não pode ir embora assim. Caralho…a gente é amigo, sempre foi parceiro um do outro. Já te disse, não rolou nada! Você nunca ligou pros caras que eu fiquei e agora ta assim… Espera!
– Me solta, Kadu!
– Não vou soltar. Você não vai embora! Por que você ta agindo assim? Ta com ciúmes, por acaso?!
– To! Satisfeito?
Ele me segurou e eu me desvencilhei. Ele tentou novamente me segurar e a gente começou a se debater, enquanto um tentava segurar e outro tentava se soltar e eu o empurrei contra a parede.
– Chega!
Eu gritei, olhando nos olhos dele.
Ele me olhou nos olhos e num impulso me beijou. Na minha cabeça eu queria ter empurrado ele, mas o que aconteceu foi justamente o contrário. Prensei-o com mais força contra a parede, beijando ele com violência. Minha boca se moldava a dele, enquanto as línguas se enroscavam e se sugavam mutuamente. Eu descarregava toda a minha raiva naquele beijo, que era intenso e avassalador.
Ele puxava minha blusa com força, quase a rasgando, fazendo meu corpo se colar ao dele. Eu apertava sua cintura, me livrando inconscientemente do seu short e da cueca boxer que havia embaixo. Minha boca percorria seu pescoço, esfregando a minha barba, arranhando com os dentes, puxando seu cabelo pra trás para morder seu queixo e novamente abocanhar a sua boca, engolindo-a com ferocidade.
Em poucos minutos estávamos completamente nus, meu corpo pressionando o dele contra a parede, enquanto as bocas se devoravam famintas. Virei ele de frente para o concreto, espalmando suas mãos na parede, mordendo a sua nuca, a sua orelha.
– Eu sou louco por você…
Ele falou de maneira rouca, com os olhos fechados.
Eu apertei sua bunda com força, abrindo-a e fazendo meu membro se encaixar na entradinha do seu orifício. Sarrei-o gostoso, fazendo um vai e vem com o quadril, enquanto mordia seu ombro. Ele empinou um pouco a bunda, pressionando para trás, então eu forcei, penetrando-o. Ele se contraiu, apertando os olhos em sinal de dor. Investi com mais força, segurando a sua cintura.
– Ai ai ahh aiiii caralho, ta me rasgando..Aiiiii
Eu ignorei e continuei enfiando, sentindo suas pregas se distenderem, enquanto ele apertava minha coxa, espremendo os olhos.
– Aiiiiiiiii porraaaa….aiiiiiiiiiii arrrrrrhhhh….aiiiiiiiiiiiii.
Quando senti que estava tudo dentro, esperei um pouco e comecei a tirar para logo em seguida enfiar novamente, arrancando-lhe gemidos doloridos. Mordia sua nuca e estocava com força, segurando sua cintura. Ele jogava a cabeça pra trás, suado, com os olhos fechados. Puxei seu cabelo, fazendo sua cabeça encostar-se ao meu ombro e fui beijando seu pescoço, enquanto meu quadril se ondulava e meu pau entrava e saia de dentro dele. Minha mão arranhou seu peito, descendo pela barriga até segurar sua pica e a punhetar com firmeza, seguindo os movimentos da minha pélvis.
Sai de dentro dele e o virei de frente pra mim. Beijei sua boca com paixão, sugando a sua língua, sentindo meus lábios deslizarem pelos seus. Minhas mãos escorregaram pelas suas costelas, alcançando a sua bunda a qual eu apertei com força e puxei pra cima, suspendo-o do chão. Ele entrelaçou as pernas em volta do meu quadril, segurando em meus ombros, sem descolar sua boca da minha. Levei-o para o sofá e deitei por cima dele, me encaixando entre suas pernas.
Olhei bem nos olhos dele e fui pressionando meu quadril para frente, sentindo-o acompanhar o movimento me trazendo com as pernas, fazendo com que eu voltasse a penetrá-lo. Ele gemeu rouco, fechando os olhos, sentindo cada centímetro da minha pica entrar dentro dele. Ao sentir entrar tudo, pressionei mais e rodei o quadril, fazendo com que ele arranhasse minhas costas, enquanto mordia meu ombro, delirando de prazer.
Logo os movimentos ficaram mais intensos, fazendo nossos corpos suarem juntos, enquanto eu o fodia com força. Os gemidos saiam de forma natural, denunciando todo o tesão que sentíamos. Beijava seu pescoço, mordendo e chupando em seguida, chocando meu corpo contra o dele. Ele gemia cada vez mais rápido e urgente, anunciando que o orgasmo estava próximo.
Cravei as unhas na sua bunda e acelerei os movimentos, sentindo que eu não iria aguentar muito tempo. Ele apertou minha nuca, abrindo a boca, revirando os olhos em prazer.
– Ahh caralho.. aaarrrrrrhhhhhh..ahhhhh …arrhhhh eu to sentindoo…aaarrrrhhh poorraaaa… não paraaa…aaaaarrrrrrrhhhhhhhhhhhhhhh aaaaaaaaaarrrrrrrrrhhhhhhhh asssimmmm arrrhhhhhhhhhhhh.
Então meti com força, sem parar, sentindo meu gozo se anunciar. Ele urrou, me apertando, enquanto seus jatos atingiam minha barriga em grande numero sem que ele se tocasse. As contrações do seu ânus me fizeram explodir em um orgasmo intenso, inundando seu reto de porra. Nossos corpos se debatiam em espasmos e o ar parecia fugir dos pulmões. Permaneci dentro dele, enquanto tentava recuperar o folego, com a cabeça afundada em seu pescoço.
Ele afagou meus cabelos e depois o puxou, chegando com a boca perto do meu ouvido e falando roucamente.
– Não sai. Continua…
Olhei nos seus olhos e sorri, movimentando o quadril, fazendo-o arfar novamente.
Novamente recomeçamos a transar e assim permanecemos durante um bom tempo até que chegamos ao ápice do prazer e mais uma vez tivemos um orgasmo intenso. Adormecemos juntos, embolados no sofá, sem nos preocupar com os corpos suados e melados, visto que estávamos exaustos demais para isso.
Acordei com o som do interfone, mas me recusei a me mexer. Sentia-me dopado de sono e mal conseguia abrir os olhos. O Kadu acordou, coçando os olhos. Percebendo a insistência do aparelho, rolou por cima de mim e foi atender, ainda pelado. Mantive-me deitado, de olhos fechados.
– Quem?
Ele perguntou ao interfone, com súbito estranhamento. Depois voltou-se a mim:
– Biel, Bieeeel?
– Fala…
Respondi ainda de olhos fechados e com voz sonolenta.
– O Bernado está aí embaixo.
– Hã?!
Eu perguntei abrindo os olhos subitamente.
– É, o Bernardo está aí embaixo. Deixo ele subir?
– Ta louco, Kadu?!
Eu disse praticamente pulando do sofá, sentindo uma dor incomoda na nuca.
– Ai, caralho.. O que ele ta fazendo aqui?!
Perguntei, massageando o pescoço.
– Sei lá, Biel. Me responde você.
– Também não faço ideia. Pede pra ele esperar, por favor.
Eu pedi, me encaminhando nu para o banheiro. Tomei uma ducha rápida e depois avaliei as marcas que a aquela noite tinham deixado no meu corpo. “É com o Kadu o sistema é pegada bruta” pensei.
Fui para o quarto e vesti uma roupa, pegando um agasalho de moletom e fechando o zíper até o pescoço. Voltei pra sala e encontrei o Kadu deitado no sofá, ainda nu.
– Eu vou lá ver o que ele quer.
– Ta. Boa sorte.
– Vai ficar ai assim?
– Eu ainda não acordei.
Ele respondeu fechando novamente os olhos.
– Ta. A gente ainda precisa conversar, agora com a cabeça mais fria.
– Ta, Biel. A gente faz isso depois, tá? Vai lá atender seu ex namorado.
Ele disse com uma ironia implícita.
Desci e encontrei o Bernardo encostado ao portão do prédio. Fechei ainda mais o zíper do casaco, colocando o capuz.
– Bernardo, o que você ta fazendo aqui?
Ele se virou e me olhou.
– O que eu to fazendo aqui?! Você já olhou que horas são? Você me deixou plantado naquela academia te esperando por mais de uma hora. O que foi que aconteceu?
Eu arregalei os olhos e só então me dei conta que tinha esquecido completamente de dar o treino pra ele.
– Eu perdi a hora…
Eu falei, sem graça.
– Perdeu a hora? Porra, Biel! Qual é, mano? Eu tenho meus compromissos também, sabia?
– Desculpa, Bernardo… Eu…eu nem sei o que te falar. Foi mal mesmo.
– Ta, né?
Cocei a cabeça, tentando pensar em algo pra consertar aquela situação.
– Olha, eu posso te dar o treino agora. Você tem tempo?
– Já to aqui mesmo, pronto pra isso. Bora, então. Te dou uma carona.
Fomos no carro dele e em poucos minutos chegamos na academia. Fiz com que ele se aquecesse na esteira e depois fui indicando os aparelhos. Ele suava e fazia caretas de dor, mas eu não aliviava.
– Ei, você não vai tirar esse casaco, não? Mó calor.
– Não, eu to bem assim.
De fato eu estava morrendo de calor, mas se eu tirasse o casaco ele poderia ver as marcas da noite anterior e eu não estava afim de me explicar. Encerrei o treino e peguei minha mochila pra ir embora, mas ele me alcançou antes de eu chegar a saída.
– Biel, a gente pode conversar um minuto?
– Ah, Bernardo… eu tenho que ir.
– É só um instante. Poxa, é o mínimo depois de você ter me deixado esperando.
Eu olhei pra ele e revirei os olhos. Ele sabia ser chantagista quando queria.
– Ta bom. Um minuto, ok?
Eu falei massageando a nuca e ele concordou com a cabeça.
Sentamos na cantina da academia e pedimos um suco.
– Dar com torcicolo?
– Eu dormi meio torto. O que você quer falar?
Eu perguntei dando um gole na bebida.
– Eu to pensando em terminar com a Debora.
– E porque você ta me falando isso?
– Ah Biel, eu sei que não somo mais amigos como antigamente, mas eu ainda te vejo assim.
Eu olhei pra ele sem saber ao certo o que dizer. Respirei fundo e falei:
-Porque você vai fazer isso?
– Porque não quero magoa-la. Eu não a amo.
– Então é melhor ser sincero com ela, Bernardo. O amor só é válido quando se ama a dois.
– Você tem razão. É o que eu vou fazer. Obrigado por me ouvir.
– Tudo bem. Rs
Eu disse, sorrindo.
Voltei pra casa e o Kadu não estava mais lá. Pensei comigo: “Hoje vamos ter que ter uma conversa séria e isso não pode mais ser adiado”. Resolvi algumas coisas, arrumei a casa e fiquei esperando por ele. Quando a porta se abriu e ele entrou, estava sentado no sofá a sua espera.
– Kadu, precisamos conversar e tem que ser agora.

Parte 19

Eu não sou gay…mas

Engoli a seco. E agora, como iria responder que realmente estava ouvindo a conversa dele do corredor?
– Vamos, Biel… To esperando.
Respirei fundo e falei:
– Eu confesso, Kadu. Sim, eu ouvi a sua conversa com ele. Eu sei que isso é horrível, uma tremenda falta de educação e de respeito, mas foi mais forte que eu.
Ele me olhou bravo e decepcionado.
– Porra, Biel… Caralho… Se a gente não pode ter privacidade dentro da própria casa, vai ter aonde?
– Eu sei, Kadu, eu errei. Você tem todo o direito de ficar chateado comigo por causa disso, mas você também errou, mentiu pra mim. O que você tem a dizer sobre isso?
Ele desviou o olhar, se acomodando na beirada da cama.
– Eu dormi com ele, não menti quanto a isso.
– Então porque falou que tinha rolado pela primeira vez, quando não tinha?
– Eu não to entendendo porque você está tão preocupado com isso, Biel. Cara, que diferença faz se eu transei ou não com ele?
– Pra mim faz…
Eu disse, olhando bem nos olhos dele que retribuiu o olhar com intensidade.
– Por que?
Eu continuei sustentando o olhar, sentindo minha respiração ficar mais ofegante.
– Porque… porque me preocupo com você. Me dói saber que você se entrega assim, pra qualquer um , por diversão.
– Não é pra qualquer um, mas eu sou livre quanto a isso. Me assusta o fato de eu deixar de ser, de me apaixonar por alguém e me tornar refém desse sentimento.
Olhei pra ele e perguntei:
– E você está apaixonado?
Ele abaixou a cabeça e então tornou a olhar pra mim.
– Eu não quero mentir pra você, então não me pergunta mais sobre isso. É algo meu e eu não quero compartilhar. Por favor, entenda.
– Tudo bem, eu não pergunto mais, mas não mente mais pra mim.
– Não vou, mas não escute mais atrás da porta, no corredor, seja onde for, ok?
– Ta bom.
Eu concordei rindo. Ele sorriu e saiu do quarto.
Continuei deitado, pensando que na verdade aquela conversa não tinha chegado a lugar nenhum. Continuava com as mesmas duvidas, com a mesma confusão na minha mente, mas não podia forçar uma situação. Eu sempre odiei me sentir pressionado a qualquer coisa na minha vida e não podia fazer isso com ele.
No dia seguinte, dei alguns treinos de manhã e de tarde resolvi dar uma volta de skate no parque. Estava uma tarde agradável, com o clima ameno e ensolarado. Andei bastante e por fim sentei na beira do lado para descansar. Tinha um pequeno pacote de bolachas no meu bolso e fui moendo com as mãos, jogando aos patos que ali nadavam.
De repente ouvi um barulho, um grito meio abafado e quando olhei vi uma pessoa levando um tombo cinematográfico a poucos metros de mim. Assustei-me e me surpreendi quando me dei conta que não era ninguém menos que o Bernardo. Não me movi, olhando com a boca aberta ele se levantar, todo desajeitado e fazendo careta de dor. Não me controlei comecei a rir.
– Porra, você nem pra me ajudar.
Ele falou massageando o joelho sujo de terra, esboçando dor.
– Meu Deus, Bernardo. Você é o mestre dos magos, é? O que você ta fazendo aqui?
– Eu tava seguindo os conselhos do meu personal e resolvi me exercitar e então te avistei de longe e resolvi vim falar com você. Não vi a merda daquele buraco e tomei um pacote com a bicicleta.
– Hahahahahaha.
Eu ri, sem conseguir me controlar.
– Para de rir, caralho! Eu não sei controlar bem essa coisa.
Ele disse fingindo irritação. Trouxe a bicicleta mais pra perto, encostando ela na grama. Sentou-se ao meu lado.
– Você ta bem?
Perguntei, ainda rindo um pouco.
– To, obrigado por perguntar.
Ele disse, cedendo ao cômico da situação e rindo também.
– Devia ter filmado essa cena. Você decolou com a bicicleta na versão mais desajeitada de E.T., o Extraterrestre. hahahahaha.
– É, eu tentei chegar triunfante e garotão com a bike e deu nisso. Rsrsrs.
– Foi engraçado, Bernardo.
– É, garanti sua diversão. E você, o que veio fazer aqui?
– Eu vim dar uma volta e aproveitar a tarde que estava bonita.
– E alimentar os patos, né Biel? Rs
Eu sorri, jogando as ultimas migalhas que havia na minha mão. Fiquei olhando os patos comerem e até mesmo disputarem por aqueles pedaços de bolachas e continuei a sorrir.
– Será que você ainda sabe atirar pedras como quando a gente era moleque?
– Claro que eu sei.
Eu respondi sorrindo.
– Eu era bem melhor que você. Garanto que eu continuo sendo.
Ele disse, pegando uma pedra e a arremessando, fazendo-a quicar algumas vezes sobre a agua, assustando os patos.
– Nossa Bernardo, você quase acertou o coitado do pato.
– Putz, foi mal. Rsrsrsrs. Sua vez, faça melhor.
Ele me entregou uma pedra, me desafiando. Eu o olhei com um olhar maroto e arremessei a pedra com toda a habilidade que eu não tinha. A pedra quicou poucas vezes e logo afundou. É obvio que a dele tinha ido mais longe, fazendo com que ele risse de mim.
– Ahhh, continuo o campeão de todos os tempos. Hahahaha.
– Como você se acha, hein?
Eu disse fingindo desdém, mas rindo no final.
– Eu não me acho, eu sou. Rsrsrsrs. Mas eu também sei ser muito generoso. Tem uma técnica, é a maneira que você segura a pedra. Olha.
Ele segurou a minha mão, colocando a pedra sobre ela. Posicionou o objeto, apertando-a sob a minha pele como se quisesse dar firmeza a pegada. Juntou o braço ao meu, esticando-o para mirar o alvo. Olhei pra ele, que estava concentrado em me mostrar a posição do braço e como a minha mão deveria girar dando impulso a pedra. Ele olhou pra mim e ficamos assim, nos encarando por alguns minutos, até que eu acordei daquela pequena hipnose e voltei o meu olhar pra frente.
Atirei a pedra, que foi bem mais longe que a primeira vez. Sorri e olhei de volta pra ele que sorriu também.
– Viu? Bem melhor. Tenta você sozinho agora.
Eu peguei outra pedra e fiz todo o movimento que ele tinha me ensinado. Atirei e dessa vez foi melhor ainda.
– Acho que alguém vai perder o trono. Rs
Eu disse sorrindo.
– Ah tá, se acha, né? Só fui generoso em ensinar a técnica, mas tem o talento e esse eu tenho de sobra. Rsrsrs.
– Aff Bernardo. Rsrsrs
Eu disse rindo, fazendo com que ele risse também.
– Bom, já está anoitecendo, é melhor eu ir indo.
– Poxa Biel… Fica mais um pouco. Fazia tanto tempo que a gente não passava um tempo assim… de paz, sorrisos…
Ele pediu com afetuosidade.
– Algum conhecido seu pode passar aqui e achar que somos um casal feliz e aí, Bernardo? Você tem uma reputação a zelar.
Eu disse pegando o meu skate e me afastando andando. Ele veio até a mim, empurrando a bicicleta.
– Porra, Gabriel! Porque você fala essas coisas? A gente tava tendo um momento tão legal e você parece que quer estragar tudo.
– Eu??? Eu só não esqueci as coisas que você fez. Não é um momento agradável que faz apagar todos os outros que você me fez sofrer, cara.
– Eu também sofri…
Eu olhei pra ele, que me olhava triste. Puxei o ar e falei:
– Cuida desse joelho, Bernardo. Não vou aliviar na segunda feira.
E virei às costas, sem olhar pra trás.
Fui embora pensando o quanto eu conseguia ser cruel às vezes, mas eu não podia simplesmente ignorar tudo que tinha acontecido. Ele tinha dilacerado meu coração duas vezes e eu não ia deixar que isso acontecesse uma terceira.
Cheguei em casa e ao abrir a porta me choquei com o que eu vi. A Jaqueline, minha ex namorada, estava sentada no sofá ao lado do Kadu, que me encarava com cara de quem não sabia o que fazer. Encostei o skate na parede, tentando me refazer daquela surpresa, até que finalmente falei:
– Jackie?
Ela sorriu e levantou-se, vindo em minha direção.
– Oi Biel. Quanto tempo, né?
– Sim, muito tempo… mas o que você está fazendo aqui?
– Ah, eu passei pra uma faculdade em outra cidade e passei esse tempo todo lá, agora estou de volta. Soube que você estava morando aqui e vim fazer uma visita. Fiz mal?
Ela perguntou um pouco sem graça.
– Não. Eu só estou surpreso.
Olhei pro Kadu, que estava atrás dela fazendo um gesto com as mãos como se não tivesse culpa.
– Eu trouxe uma garrafa de vinho, aquele que você gosta. Eu achei que a gente podia tomar e colocar o papo em dia. O que você acha?
– Ah… tudo bem, eu só vou tomar um banho. Pode ser?
– Claro, fica a vontade. Eu espero.
Ela disse com um sorriso encantador.
Fui até o banheiro e logo me despi, entrando embaixo do chuveiro. Estava me ensaboando, pensando naquela travessura do destino e como a vida conseguia ser bizarra às vezes. Vi a porta abrindo e logo me encolhi atrás do vidro de blindex transparente, tentando esconder em vão o corpo, me amaldiçoando por ter esquecido de trancar a porta. Me senti aliviado ao ver que se tratava do Kadu e não dela.
– Ei, calma sou eu. Nossa cara, que isso hein? Quando ela tocou a campainha quase cai pra trás. Nem reconheci, ela ta ainda mais linda.
– Porra Kadu, você podia ter me ligado, né? Me preparado. Eu quase tive um infarto.
– Ligar como? Ela ficou do meu lado o tempo todo. E ela pediu pra te esperar. O que você queria? Que eu fechasse a porta na cara dela?
– Tudo bem, agora já era… O que eu faço? Você vai ficar aqui comigo, né?
– Eu? De jeito nenhum. Falei pra ela que vim aqui te avisar que to de saída. Se vira, meu irmão.
Eu fechei o chuveiro, pegando a toalha.
– Ah não Kadu, por favor. Quebra essa, vai. Eu não quero ficar sozinho com ela, é muito desconfortável essa situação.
– Hahahaha, eu não quero nem saber. Vou sair e você juízo, hein? Usa camisinha.
– Hã?!
– Calma, Biel. To brincando. Eu sei que você honra nosso acordo. Oh, boa sorte, ta? Rs
Ele disse dando uma piscadela com o olho e saindo do banheiro.
Respirei fundo e enrolei a toalha na cintura, indo até o quarto me vestir. Coloquei uma blusa e uma bermuda, ajeitando os cabelos com as mãos e fui até a sala encontra-la.
– Demorei?
Perguntei com um sorriso sem graça.
– Uma eternidade. Rs
Ela respondeu sorridente.
Fui até a cozinha, abri o vinho e voltei com duas taças. A servi primeiro e depois a mim, e sentei ao seu lado.
– Nossa, você ta tão bonito. O tempo só te fez bem.
Ela disse me fazendo corar. Mudei drasticamente o assunto.
– Então, como vai a faculdade?
– Ah Biel, você sabe que veterinária sempre foi uma vocação, né? Estudar na rural tem sido um aprendizado e tanto. Estou em recesso de alguns meses e só vou voltar pra defender a monografia. E você, indo bem?
– Sim, estou quase me formando também. To trabalhando bastante, me ocupando boa parte do tempo.
Eu respondi. Fomos conversando assuntos aleatórios, entre uma golada e outra. Ela contou das coisas que aconteceram com ela lá e como foi a adaptação na outra cidade, já que passou a morar numa republica de garotas. Eu, em contrapartida, contei da academia que dava aula e de como era morar com o Kadu, largando a saia da mamãe.
Ela sorria, mexendo nos cabelos, esbanjando charme e feminilidade. Eu sorria também, tentando disfarçar ao máximo o desconforto que sentia e confesso que o vinho estava ajudando nisso. Depois de algum tempo, pedimos uma pizza e nos sentamos no chão da sala para comer. Comemos algumas fatias e retornamos as taças de vinho, finalizando a garrafa.
– Acho que agora eu acredito que você realmente não tinha ninguém quando terminou comigo.
Ela falou, solvendo um gole de vinho.
Achei, inocentemente, que aquele assunto não viria à tona, mas estava enganado. Senti-me culpado, pois aquilo não era verdade, porém o que mais eu poderia falar?
– Jackie, isso já tem muito tempo. Eu acredito que você teve outros caras e eu também segui com a minha vida. Espero que possamos ser amigos, eu gosto muito de você.
– Claro. Eu só tenho boas lembranças de ti e quero muito ser sua amiga. Eu to falando porque você nunca mais assumiu ninguém e eu achei que talvez eu tivesse ficado marcada na sua vida, que seu amor fosse realmente eu.
Eu abaixei a cabeça tentando pensar em algo pra dizer. Não queria magoá-la, mas também não podia dizer a verdade.
– Eu não assumi ninguém porque não era a hora certa e tenha certeza que te guardo sim num lugar muito especial no meu coração. Também só tenho boas lembranças e você foi muito especial na minha vida. Só que já passou muito tempo e eu to bem assim como eu estou.
Ela esboçou um olhar decepcionado, mas logo sorriu para disfarçar tal descontentamento.
– Eu entendo. Bom, eu acho que já vou indo, mas vamos marcar de sair, conversar. Eu gosto muito de você. Não quero mais ficar distante. Eu não te esqueci e duvido que algum dia isso vá acontecer.
– Claro, Jackie. Vamos sim.
Eu respondi rápido, não prolongando aquele assunto.
Eu levantei, levando-a a porta. Abraçamos-nos e antes de sair ela colou os lábios levemente aos meus, sorrindo em seguida.
– Pelos velhos tempos.
Ela disse e saiu.
Fechei a porta e pensei naquilo. Ela estava ainda mais bonita, tornando-se uma mulher exuberante. Só que eu não podia voltar atrás, nem tinha o direito de magoá-la estando na situação que estava. Já tinha problemas demais e não queria mais um.
No dia seguinte acordei e passei o dia na casa da minha mãe. Mandei uma mensagem para o Kadu avisando que iria dormir lá para curtir um pouco a velha e meu irmão, mas perto de meia noite eu me lembrei que tinha marcado com uma aluna muito cedo e meu tênis estava no apartamento. Resolvi voltar.
Chegando ao apartamento, eu me deparei com uma cena que me tirou o folego. O Kadu estava dormindo só de cueca abraçado com o tal do Bruno, também semi nu, no sofá. Fiquei olhando, atônito sem entender aquilo.
– Que porra é essa?!
Eles acordaram sobressaltados.
– Biel?!

Parte 18

Eu não sou gay…mas…

Ele me olhou espantado. Parou de ensaboar o corpo e me falou:
– Porque você ta agindo assim, Biel?
– Assim, como?
– Ta bravo. Praticamente gritando, exigindo uma explicação.
Eu olhei pra ele um tanto sem graça e só então me dei conta que tinha exagerado. Levantei as mãos numa tentativa de explicar, mas as deixei cair novamente sem que as palavras me viessem à boca. Ele desligou o chuveiro e pegou a toalha.
– O que foi, Biel?
Ele me perguntou enquanto secava o corpo.
– Nada, Kadu. Desculpa se pareci bravo…é que me preocupo com você. Só quis saber, mas se você não quiser falar, eu entendo.
– Não, tudo bem. Só me assustei com o jeito que você falou. Eu dormi com ele, sim. Conheci ele faz pouco tempo e ontem rolou pela primeira vez.
Senti meu peito apertar, estrangulando meu coração. Porque estava me sentindo assim? Sempre soube que o Kadu tinha seus relacionamentos e isso nunca me causou nada.
– É que eu achei que você estava apaixonado por m…
Eu falei, sem pensar.
– Apaixonado por quem?
Ele perguntou, olhando fixamente pra mim, enquanto eu não conseguia encara-lo nos olhos.
Não podia falar que pateticamente achei que ele pudesse estar apaixonado por mim, já que estava evidente que não.
– Ah, sei lá Kadu. Eu não acreditei muito quando você me falou que não estava apaixonado, depois de ter afirmado pra aquela garota que estava. A não ser que você esteja apaixonado por esse cara. Está?
Ele soltou uma sonora gargalhada e enrolou a toalha na cintura.
– Hahahahahahhaha. Ah, Biel…tenho que rir. Desde quando eu me apaixono? Ainda mais por alguém que conheci outro dia. O Bruno é um cara legal, bonito e tal, mas é uma distração. Se eu não te conhecesse bem, eu diria que você está com ciúmes.
Fechei a cara e falei sério:
– Não seja ridículo!
Sai do banheiro e fui para o meu quarto.
Deitei-me e coloquei as mãos atrás da cabeça. É claro que eu estava com ciúmes, só não entendia muito bem o porquê. Ele apareceu na porta do quarto, somente de cueca boxer branca.
– Ei… Quer conversar?
– Conversar sobre o que?
Ele se aproximou e sentou na beirada da cama. Olhou nos meus olhos e sorriu.
– Não precisa ficar bravo, Biel. Eu falei brincando. Eu sei que você não sente ciúmes de mim, só está preocupado comigo. Mesmo se fosse ciúmes, seria sem sentido algum. Você é uma das pessoas mais importantes na minha vida e meu coração não tem espaço pra mais ninguém.
Ele me olhava, enquanto meus olhos, mesmo contra a minha vontade, estudavam suas feições, descendo lentamente pelo seu corpo. Voltei o olhar novamente nos seus olhos.
– Por que você ta me falando essas coisas?
Eu perguntei, perdido no desenho dos seus lábios.
– Porque eu quero que você saiba o quanto é especial pra mim e que eu nunca estragaria nada entre a gente…nunca…
Ele disse se aproximando mais de mim, com o rosto estranhamente próximo ao meu. Fiquei imóvel, com a boca semi-aberta. Então ele se afastou, como que se tivesse recobrado a consciência.
– Nossa, vou me atrasar pro trabalho.
Ele disse levantando em seguida e saindo do quarto.
Eu continuei ali parado, estático, me sentindo estranhamente confuso. Não havia entendido direito o que ele quis dizer com aquelas coisas e tampouco o meu ciúme despropositado. Afastei tais pensamentos da minha cabeça e fui para o chuveiro, tomar uma ducha e começar o dia. Ouvi ele se despedir a distância e respirei aliviado. Era melhor esquecer aquela conversa e tudo mais. Éramos amigos e era isso que importava.
O dia passou e a noite, cheguei tão cansado que logo dormi. Não tinha necessidade de retomar aquele assunto, visto que era confuso pra mim. No dia seguinte, o Bernardo estava lá na academia à minha espera, dolorido e reclamão. Mais uma vez peguei pesado, fazendo com que ele não tivesse folego para argumentar ou puxar assunto. Tudo correu de maneira normal e assim foi assim durante os outros dias. Já estava me acostumando a treiná-lo e a lidar com o desconforto daquela situação. Ignorava as suas gracinhas e o colocava para suar para compensar a raiva que eu sentia dele.
No fim de semana fomos a um barzinho encontrar a galera. Estávamos ocupando uma mesa grande, animada e a musica ao vivo embalava o ambiente. Avistei o Bernardo chegar com a sua namorada a tira colo e disfarcei meu descontentamento. Ter o mesmo grupo de amigos e morar tão próximos ocasionava situações assim. Eles cumprimentaram a todos e o papo seguia animado.
Depois de um tempo, vi o Kadu se levantar e ir até um rapaz que logo reconheci sendo o tal Bruno. Eles conversavam amigavelmente, sorrindo, enquanto eu os observava a distância. Levantei-me e fui até a varanda do bar pegar um pouco de ar. Sem querer, me peguei olhando os dois novamente, de cara fechada e então senti uma presença ao meu lado.
– O Kadu não perde tempo mesmo, né? Já te trocou por outro.
O Bernardo disse em tom de deboche.
– Como que é? Do que você está falando?
– Ué, Biel. Ele ta ali de papinho com aquele cara, dá pra perceber que não é só um amiguinho corriqueiro.
Ele disse sorrindo.
– Cala a boca, Bernardo! O que você tem a ver com isso?
– Não tenho nada. Só foi uma observação. Eu achei que vocês estavam juntos, mas pelo jeito não, ne? O Kadu não tem pudor de se jogar pra outro cara na frente dos outros.
Eu olhei pra ele bravo. Quem ele pensava que era pra falar essas coisas?
– Larga a mão de ser preconceituoso, cara. O Kadu não ta fazendo nada demais, só está conversando com um conhecido. Você ta falando isso só porque sabe que ele é bi. Ninguém nem ta vendo com esses olhos. Quem deveria se envergonhar é você, por pensar assim.
Ele sorriu, cruzando os braços.
– Eita, calma. Eu não sou preconceituoso, afinal olha o que aconteceu entre a gente. Não é nada que eu me arrependa, muito pelo contrário. Por mim estávamos juntos até hoje. O Kadu que sempre levantou a bandeira que não pertence a ninguém, é porra louca…
Ele disse olhando nos meus olhos. Desviei o olhar.
– Você não tem nada mais o que fazer, não? Cadê a sua namorada?
– Ela ta la dentro.
Ele respondeu com tranquilidade.
– E o que você ta fazendo aqui, então? Vá ficar com ela e me deixe em paz. Que merda!
– Nossa, Gabriel! Como você é grosso! Se eu to aqui, é porque eu quero estar aqui… com você.
– E se eu to aqui é porque eu quero ficar sozinho.
Eu falei irritado, coçando a região da pélvis.
– Já é a quinta vez que te vejo coçando aí. Ta com alguma coisa?
– Era só o que me faltava, isso não é problema seu, Bernardo.
– Fala, Biel.
Eu revirei os olhos, descontente com aquela insistência. Virei às costas, largando-o sozinho e me dirigi ao banheiro. Realmente aquela coceira estava me incomodando há dias e só estava piorando. Fui até o mictório e comecei a urinar. Olhei bem pro meu pênis, que estava avermelhado e com algumas pintinhas. Senti alguém do meu lado e quando vi, era o Bernardo novamente.
– Meu Deus, o que você ta fazendo aqui agora?!
Eu perguntei, me apressando em guardar meu pau novamente na cueca.
– Me mostra.
– Mostrar o que?
Eu perguntei me fazendo de desentendido.
– Biel, eu sei que você ta com alguma parada aí. Eu quero ver, posso ajudar.
– Pode é o caralho. Você nem é médico ainda e mesmo se fosse, com certeza essa não seria a sua especialidade.
– Eu não sou ainda, mas já tenho noção de muitas coisas. Deixa-me ver, não tem nada ai que eu não tenha visto. Vamos, anda.
Eu olhei pra ele contrariado, mas por fim cedi. Realmente estava incomodando e ele podia ajudar. Sei que ali estava uma desculpa implícita para ver meu pau, mas não tinha porque temer. Abri a calça novamente e pus o meu membro para fora, olhando nos olhos dele. Ele olhou bem nos meus olhos e depois olhou para baixo. Ficou analisando por alguns segundos e depois sorriu.
– Mudou o sabão em pó ou amaciante de roupas?
Ele perguntou com naturalidade.
– Eu to usando um lá que o Kadu comprou, por quê?
– Porque está te dando alergia. Muda os dois por precaução e usa a pomada que vou te passar. Te mando o nome por sms, ta?
– Ta…valeu.
– Disponha e vê se me dá um desconto nos treinos.
Ele disse sorrindo, me fazendo sorrir também.
– O que está acontecendo aqui?
Eu me sobressaltei com a pergunta e só então me dei conta que eu não tinha guardado meu pau. O Kadu estava parado na porta, esperando pela resposta enquanto eu me apressava em fechar a calça, de maneira desajeitada e aflita. O Bernardo sorriu e saiu do banheiro, sem falar uma palavra sequer. Antes de sair, passou pelo o Kadu e o encarou de forma instigante e deixou o recinto. “Filho da puta”, eu o xinguei mentalmente, me dirigindo a pia para lavar as mãos.
– Biel..não vai me responder?
– Responder o que, Kadu?
Eu devolvi a pergunta, lavando as mãos.
– Sei lá, eu entro no banheiro, ta você de pau pra fora na frente do Bernardo…que porra é essa?
– Não é nada demais. Eu estou com uma alergia e ele só deu uma olhada. Só.
– Ah..só. E desde quando o Bernardo entende de alergia? Você nem me falou nada sobre isso. Ta com alergia há quanto tempo?
– Eu nem sabia que se tratava de uma alergia. Ele está fazendo medicina, já começou a residência. Olhou e falou que é por causa de sabão em pó ou amaciante. Você fica fazendo essas economias porcas, dá nisso.
Eu respondi secando as mãos.
– Ah, claro. A culpa de alguma forma tinha que ser minha, né?
– Eu não disse isso. Só que vai ter que trocar. Cadê seu amiguinho? Ele deve estar sentindo a sua falta.
Eu disse saindo do banheiro. Não estava afim de continuar aquela conversa. Na verdade me sentia estranho em relação a tudo. O melhor que eu tinha a fazer era ir embora.
Não me despedi de ninguém, só dando um tchau coletivo. O Kadu pra variar não estava na mesa e eu não me preocupei em procurar. Antes de entrar no carro, ouvi meu celular apitar e era a mensagem do Bernardo falando o nome da tal pomada.
Passei na farmácia antes de ir pra casa e comprei o medicamento. Tomei um banho ao chegar e apliquei o produto. Estava quase pegando no sono, quando ouvi um barulho na porta. Levantei e fui até o corredor. Infelizmente, o meu péssimo habito recém adquirido de ouvir conversas estava virando rotina. Identifiquei as vozes como sendo do Kadu e do tal do Bruno.
– Valeu pela carona.
– Não vai me convidar pra entrar?
– Ah não, não vai dá. O Biel ta em casa.
– Mas vocês tem quartos separados, não tem nada a ver. Deixa, vai? Você fazendo jogo duro comigo. Resistiu naquela noite, nem quis… você sabe. To começando a achar que você não é tão afim de mim quanto eu sou de você.
– Não é isso, Bruno. É que naquela noite eu não tava na vibe e aqui não rola.
– Ta, então vamos pra outro lugar… um motel, que tal?
– Hoje não…
– O que foi? Tem mais alguém, é isso?
– Não… eu só to meio cansado.
– Kadu, seja sincero comigo. Poxa, eu to gostando de você. É o Gabriel? É isso? O que rola entre vocês?
– Não, porque você está falando isso? A gente é amigo.
– Hum.. sabe que você olha de uma maneira pra ele, que nunca olhou pra mim. Acho que rola mais do que você ta me dizendo. Pode ser que não da parte dele, mas da sua com certeza.
– Bruno, por favor, ta tarde. Amanhã ou outro dia a gente conversa. Pode ser?
– Tudo bem, não vou mais insistir. Quando você tiver afim, me procura.
Então eu ouvi a porta se fechando e corri de volta pro meu quarto. Joguei-me na cama e fingi que estava adormecido, e não demorou muito pra ouvir batidas na minha porta. Ele entrou e eu abri os olhos, encarando-o.
– Cara, o que deu em você pra ir embora e me largar lá?
– Eu estava cansado. Só isso.
– Custava avisar?
– Você tava de papinho com aquele cara, não quis atrapalhar.
– Nada a ver. Eu só estava conversando com ele. Não fui eu que estava no banheiro mostrando o pau pro ex namorado.
– Kadu, eu te expliquei o que aconteceu…
– Para, Biel! Cara, o que é isso? A gente nem devia ta tendo essa conversa.. Você tem a sua vida e eu tenho a minha. A gente sempre se respeitou, nunca teve essa cobrança entre a gente.
– Eu sei, mas a gente já está tendo essa conversa, então não foge. O que ta pegando?
– Do que você ta falando, Biel?
– Senta ai. Vamos conversar.
Ele me olhou um pouco desconfiado, mas acabou sentando. Dava para sentir a tensão no ar, mas o nosso relacionamento estava ficando cada vez mais estranho e a gente precisava tentar resolver antes que aquilo crescesse ainda mais.
– Kadu, você ta agindo estranho e não negue, por favor. Parece que você está me escondendo algo. E você tem mentido pra mim, que eu sei.
– Como assim?
– Você me falou que tinha rolado com esse cara aí e não rolou nada.
– Você tava ouvindo a minha conversa de novo?!

Parte 17

Eu não sou gay… mas…

Fiquei parado, petrificado no corredor ouvindo aquela confissão que soou tão estranha aos meus ouvidos. O Kadu sempre me contou tudo, se ele estava apaixonado por alguém, eu deveria saber.
– Quem é a pessoa?
A garota perguntou apreensiva.
– Isso cabe somente a mim. Olha, Kamila eu não quero te magoar. Vamos deixar as coisas acontecerem como sempre foi, ta?
– Se você não quer falar, eu não posso te obrigar. Saiba que eu gosto de você e vou estar onde sempre estive quando você quiser me procurar. Vou indo…
E então eu ouvi um silêncio e o barulho da porta se fechando. Caminhei até a sala e esperei ele se virar. Ele se sobressaltou ao me ver.
– Nossa, Biel! Que susto, cara! Há quanto tempo você ta aí?
– Tempo suficiente pra ouvir o que você acabou de dizer. Como assim você está apaixonado? Por quem, Kadu?
Eu perguntei esperando uma resposta, que obviamente não veio. Ele ficou mudo, me olhando de forma assustada, com certeza pensando freneticamente no que dizer.
– Ah… eu falei isso pra poder me livrar dela. Eu não queria mais ficar com ela e foi a forma que eu encontrei…
Eu me aproximei e olhei bem nos olhos dele.
– É verdade isso ou você vai começar a mentir pra mim?
Ele desviou o olhar e foi para a cozinha, mas eu o segui.
– Eu to esperando, Kadu.
Ele continuou de costas para mim, com a geladeira aberta sem pegar nada dentro dela..
– Eu já te falei… é isso.
Eu continuei parado ao lado do balcão da cozinha, esperando ele falar mais alguma coisa, mas isso não aconteceu. Dei de ombros e voltei para o quarto. Deitei na cama e fiquei pensando no que eu ouvi e no que eu não tinha escutado. Ele podia estar falando a verdade, mas algo em mim me dizia que ele estava me escondendo algo e isso me incomodava bastante.
A gente não tinha segredos um com o outro e não queria que isso começasse agora. Porém eu não podia obrigar a ele me falar o que ele não queria e não me restava outra opção a não ser respeitar o espaço dele.
O resto da semana passou, assim como as outras sem maiores acontecimentos. A rotina estava corrida como sempre, meus horários de aula cada vez mais loucos faziam com que eu quase não parasse em casa.
Um dia estava na academia, supervisionando o salão, quando sinto uma mão no meu ombro. Olhei e me surpreendi ao constatar que era o Bernardo. Ele estava vestindo uma blusa de dry fit azul e uma bermuda, sorrindo ao olhar pra mim.
– O que você está fazendo aqui, Bernardo?
– Como sempre o seu bom humor matinal me cativa. Bom dia pra você também.
– Eu não to mal humorado, só to surpreso de te ver por aqui. Aconteceu alguma coisa?
Perguntei sério.
– Aconteceu. Resolvi tomar vergonha na cara e me matriculei na academia. Você vivia me dizendo que sou sedentário e acho que você tem razão.
– Hã?! Pera… Desde que você voltou dos Estados Unidos, você nem sequer cogitou a ideia de pisar numa academia, nem durante o tempo que a gente…você sabe… e agora você resolveu malhar? E logo aqui?
– Essa é perto de casa e é claro que eu vim atrás do melhor personal que existe: Você.
Eu arregalei os olhos e cai na gargalhada.
– Hahahahaha. Ah tá…senta lá Cláudia! Você só pode ta brincando!
– Não, to não. Sério Biel, eu preciso malhar, me exercitar. Eu quero cuidar da saúde dos outros, então tenho que começar pela minha. Eu não tenho muito tempo, então preciso de um profissional e você é o melhor que eu conheço. Topa?
Eu olhei pra ele espremendo os olhos, do tipo “Oi?”.
– Claro…que não! Vai se fuder, Bernardo! Tanta academia por ai, você tem que escolher logo a minha. E você acha que eu vou ser seu Personal? Só pode ser piada. Vá na recepção que lá eles tem uma lista de profissionais e escolha outro. Agora da licença, que eu to ocupado.
Sai andando, mas ele foi atrás de mim.
– Nossa, você é um cavalo mesmo. Eu não quero outro, eu quero você.
Eu me virei e olhei bem pros olhos dele.
– O que?!
– Como personal, é claro. Pow Biel, seja profissional, separe as coisas. Eu posso pagar mais do que você cobra porque eu confio no seu trabalho…
– Ei, pera… Você ta querendo me comprar?! Que porra é essa?! Bernardo, eu vou meter a mão na sua cara..
– Não! Nossa, Gabriel! Você é difícil, hein cara? Eu to te falando não me importo de pagar mais caro porque sei que você é melhor. Eu só quero orientação para me exercitar, não é possível que você negue isso. Profissionalismo, lembra? Você mesmo falou que poderíamos ser colegas, conviver numa boa. Você tem medo do que?
Eu olhei pra ele, sem argumentos no momento, sabendo que ele havia me vencido no cansaço.
– Não tenho medo de nada, seu merda! Olha Bernardo, eu vou fazer porque realmente sou profissional e sei separar as coisas. Se você vier com alguma gracinha ou me tirar do sério, além de parar com o trabalho, eu te marco a cara de novo. Entendeu?
– Taaa. Eu vou me comportar, até porque somos amigos agora. Nada a ver, né? Eu sou comprometido, você sabe.
Ele falou essas ultimas palavras com tanto orgulho, que eu quase perdi a paciência, mas sabia que não podia ceder as provocações dele. Eu iria mostrar a ele que eu poderia ser superior a esses detalhes ridículos.
– Claro. Vem, eu tenho que fazer a sua avaliação.
– Ah sim.
Ele respondeu com uma alegria que me fez revirar os olhos.
Entramos na sala de avaliação física e fechei a porta. Liguei o computador e comecei a preencher os dados dele.
– Tira a camisa, por favor.
Pedi sério. Ele, no entanto, abriu um sorriso que fez com a minha vontade de quebrar seus dentes chegasse ao limite. Ele começou a tirar o short e eu praticamente berrei:
– Não precisa tirar o short!
Ele se sobressaltou assustado e falou meio sem graça:
– Ah ta. Desculpa.
Revirei os olhos mais uma vez.
Aproximei-me com a fita métrica e comecei pelos braços. O mais afastado possível, tirava as medidas e as passava para o computador. Virei ele de costas e medi as mesmas. Ele virava o rosto e sorria, mas eu ignorava, me mantendo sério. Virei ele novamente de frente e passei a fita pela sua barriga, medindo seu abdômen, me amaldiçoando por ter que encostar as mãos na sua pele quente e quando levantei os olhos, encontrei os dele. Ele virou a cabeça pro lado sorrindo e eu continuei o meu trabalho.
Respirei fundo e passei a fita na sua coxa, me concentrando em tirar a medida, mas isso era uma tarefa árdua para mim e eu sei que ele estava percebendo isso. Sorria o tempo todo, tentando parar quando eu o encarava, mas demostrando satisfação com aquilo tudo.
Deixei a parte mais difícil para o final: o quadril. Sentia seus olhos em mim, mas foquei no que eu estava fazendo, tentando demonstrar naturalidade. Ele ficou imóvel e vi que sua pele se arrepiou quando passei a fita em torno do seu quadril, resvalando na sua bunda e consequentemente no seu pau. Tentei ser ligeiro, passando rapidamente os dados para o computador.
– Acho que o Sr. Profissionalismo corou. Rs
Ele afirmou com um sorriso malicioso nos lábios.
– Vai tomar no cú, seu desgraçado. Ta precisando de óculos, é? Mais uma gracinha eu vou te deixar sua cara corada na base da porrada.
Esbravejei e ele se calou.
Encaminhei-o até a balança e depois medi a sua altura, completando as informações que faltavam para fazer a avaliação.
– Qual é o seu objetivo?
Perguntei para ele sério.
– Ah, eu acho que eu tenho que ganhar um pouco de massa, né? Apesar de sedentário, eu não estou fora de forma, como você pode ver, mas um pouco de músculos é sempre bom. Não acha?
– Quem tem que achar é você, não eu. Vou trabalhar em cima do seu objetivo. Você já pode vestir sua camisa.
Respondi seco.
– Ah, claro. Rs
Ele disse sorrindo. Voltamos novamente ao salão e falei para ele:
– Bom, você já pode ir. Vou estudar a sua avaliação e preparar um treino em cima dela. Esteja aqui amanhã às 7h. É um horário vago que eu tenho.
– Cedo, né?
– Você ainda pode desistir.
Eu falei esperançoso.
– Não, não. Estarei aqui. Vai ser bom para começar o dia. Muito obrigado, Biel.
– Tchau.
Eu respondi seco e virei às costas, voltando para as minhas atividades.
O resto do dia eu fiquei pensando naquilo. Era muita falta de sorte ou muita marotice do destino pregar peças desse tipo. Já que eu aceitei, eu iria fazer da forma mais profissional possível. Só esperava conseguir essa proeza.
No dia seguinte, pontualmente, ele estava lá. Arrependi-me de ter aceitado aquela loucura, mas era tarde demais pra voltar atrás. Ele com certeza não ele aceitaria uma recusa naquele momento e eu sabia que ainda iria me arrepender muitas vezes de ter cedido.
– Achou que eu não viria, né?
Ele perguntou sorrindo.
– Eu tinha certeza que sim. Bom, vamos começar logo que eu tenho um dia cheio.
Encaminhei-o para esteira e fiz com que se aquecesse. Depois fomos pro primeiro aparelho e eu ensinei como fazia. Pus a carga e ele começou a fazer o exercício. Fui intensificando a série, passando para outros aparelhos e utilizando materiais próprios pro treino. Diverti-me vendo o seu sofrimento e o suor que aumentava de acordo com os exercícios.
– Pow Biel, pega leve, né? Não é muito pro primeiro dia, não?
– Faz o que eu mando e não reclama. Você que quis isso. Bora, mais 15 repetições.
Eu falei seco, enquanto ele se esforçava pra dar conta do recado, embora eu tivesse quase certeza que muitas vezes ele errava os movimentos, só para que eu o tocasse corrigindo-o. No final do treino, ele estava acabado. Respirava com dificuldade, suando bastante e eu me sentia estranhamente vitorioso.
– Porra, você acabou comigo. Fez de proposito, né?
Ele perguntou, secando o suor com a camiseta.
– Eu fiz o meu trabalho. Confesso que ele é bem recompensador às vezes. Quando você quer marcar o próximo?
– Eu marcaria pra amanhã, mas tenho certeza que não vou conseguir nem andar depois disso daqui. Então pode ser pra depois da amanhã no mesmo horário. Acho que 3 vezes por semana está de bom tamanho.
– Por mim, tudo bem. Ta marcado. Tenho que ir.
Eu disse, já virando as costas para que ele não tivesse tempo pra prolongar aquela conversa.
– Ei, não tem um tempinho pra tomar um suco?
Ele perguntou amistosamente.
– Vai pro inferno.
Eu disse calmo, sem nem olhar pra trás.
Passei o dia entre treinos e pequenos intervalos e depois fui pra faculdade, só chegando tarde da noite em casa. Tinha um bilhete do Kadu avisando que tinha saído e provavelmente não voltaria àquela noite, o que eu estranhei um pouco, mas pensei que poderia se tratar de uma mulher ou uma nova conquista. Fazia muito tempo que não o via com ninguém e de certa forma o fato dele não dormir em casa me causava alivio e desconforto, que eu não sabia explicar por que.
No dia seguinte não tinha que dar treino tão cedo e resolvi dormir mais um pouco. Acordei, fui à cozinha beber um copo de agua e me sobressaltei ao ouvir a porta da sala se abrindo. O Kadu e mais um rapaz entraram rindo, numa intimidade evidente. Quando eles me viram ali, pairou um silêncio no ar. Então ele resolveu se pronunciar:
– Ah… Oi Biel. Eu não sabia que você estava em casa a essa hora….
Eu continuei quieto e sério, somente olhando para ele e depois pro rapaz que me encarava com naturalidade.
– Ah…esse é o Bruno…
O tal cara me cumprimentou a distância, fazendo com que eu me limitasse a responder com um aceno de cabeça. O Kadu voltou a sua atenção pro rapaz e eles começaram a ensaiar uma despedida. Eu sei que eu deveria ter voltado pro meu quarto e ter deixado eles a vontade, mas eu simplesmente não consegui.
– Bom, eu vou nessa, então. Me liga mais tarde?
O cara falou pro Kadu com um sorriso enigmático nos lábios.
– Eu ligo sim..
– Gostei muito da noite….
– Eu também, Bruno…
O Kadu respondeu meio sem graça. O cara foi embora e então ele fechou a porta, me olhando com uma aparente tranquilidade.
– Não teve treino essa manhã?
– Não.
Eu respondi no automático.
– Entendi. Bom, eu vou tomar um banho. Ainda tenho que ir trabalhar.
Ele foi pro banheiro e eu continuei parado no meio da cozinha, me sentindo estranhamente incomodado. Fui atrás dele, que já se encontrava embaixo do chuveiro.
– Kadu, quem é esse cara?
Eu perguntei seco.
– Uoww, Biel. Que susto!!! É um conhecido…um amigo…
– Amigo? Que amigo é esse que eu nunca vi? Kadu, vocês dormiram juntos?
Eu perguntei, não conseguindo conter a ansiedade.
– Hã?
Ele perguntou se fazendo de desentendido.
– Você transou com ele?!

Parte 16

Eu não sou gay…mas

Eu fiquei olhando para ele incrédulo, sem conseguir disfarçar a minha surpresa com o que ele tinha acabado de me dizer.
– Namorada?!
Eu perguntei sem acreditar naquilo tudo.
– É, a gente começou a namorar há pouco tempo.
Ele respondeu um pouco sem graça, tentando manter a naturalidade.
– Oi Gabriel. É um prazer te conhecer. Eu já te vi algumas vezes, mas nós não tínhamos sido apresentados ainda.
Ela falou sorrindo, enquanto eu a olhava com a boca meio aberta, completamente sem ação.
– Ah..prazer.
Foi só o que eu consegui dizer.
– Debby, pega uma cerveja pra mim, por favor. To com uma sede.
Ele pediu, dando um selinho na boca dela na minha frente. Eu fiquei olhando a cena, me amaldiçoando por ainda não ter saído dali.
– Bonita ela, né?
Ele perguntou ironicamente.
– O que, Bernardo? Como é que é?! Namorando? E ainda tem a cara de pau de me perguntar se é bonita?! Vai tomar no cu, seu babaca!
Eu disse saindo, mas ele entrou na frente.
– Calma. Eu não to entendendo essa sua reação. Não foi você que terminou comigo? Que falou que não dava mais certo e que não adiantava mais discutir? Parti pra outra. Você achou que eu ia ficar trás de você pra sempre?
Ele falou olhando bem nos meus olhos, com aqueles olhos esverdeados que estavam estranhamente mais claros naquele dia. Eu olhei de volta, sério, para depois abrir um sorriso.
– Tem razão. Ela é muito bonita, sim. E espero que você seja feliz. Parabéns, o prêmio de hétero convicto e enrustido vai pra você.
Eu disse e sai em seguida. Fui andando, me afastando de todos até chegar a um pequeno lago. Sentei na grama e fiquei pensativo. Como ele pode esfregar a garota na minha cara? Babaca! Estranho como tudo pôde acabar assim, dessa maneira tão ridícula. Vai ver ele tinha razão, em partir pra outra, esquecer tudo que tinha acontecido.
Nem vi quanto tempo se passou enquanto eu estava ali perdido nos meus devaneios. O sol estava perto de se pôr. Senti alguém sentando do meu lado e quando olhei era o Kadu.
– Você ta bem?
Ele perguntou preocupado.
– Não sei..
– Eu tava te procurando já faz tempo. Você sumiu. O que houve? Tem a ver com o Bernardo e a tal garota, né?
– Ah, Kadu. Eu não sei porque isso ainda me afeta, era obvio que eu devia esperar por algo assim. Acho que eu achei que ele fosse ter um pouco de respeito depois de tudo, mas parece que não. Ele veio me apresentar a namorada, acredita? Mas ele ta certo em partir pra outra. Era o que ele queria, ficar com garotas, voltar a ser hétero…sei lá. Em pensar que foi ele que começou tudo isso. Eu tinha uma vida normal e agora, me tornei um viado..sei lá..
Ele me olhou e sorriu.
– Você não acredita nessa bobagem, né? Você não virou um viado, rs. A atração já existia, ele só a despertou em você. E você continua o mesmo, um homenzarrão, bruto, ogro..lindo.
Ele disse me olhando, sorrindo pra mim. Sorri de volta.
– Desculpa…eu nem sei o que eu to falando. É claro que isso não tem nada a ver e eu nem me arrependo de nada, não. Só criou uma confusão na minha cabeça, mas você tem me ajudado tanto, em tantas coisas. Eu nem tenho como te agradecer por tudo. Valeu, Kadu.
– Que isso, Biel. Você é..Nossa…eu..
Ele ia falando, mas foi interrompido por uma voz familiar.
– Olhaaa! O casalzinho assistindo o pôr de sol juntinhos! Que lindo!!!
Eu me sobressaltei e olhei para o Bernardo que praticamente gritava, segurando uma garrafa de whisky na mão direita.
– Ta louco, Bernardo?! O que você veio fazer aqui? Você ta bêbado?
Eu perguntei, me levantando.
– To e dai? Não fuja do assunto, seu desgraçado! Você querendo me dar lição de moral, mas já rolava essa palhaçada com esse cara enquanto a gente tava junto. Me largou pra poder ficar com o seu amiguinho aí.
– Bernardo, para com isso. Isso daqui não é lugar pra esse tipo de conversa e você ta embriagado. Cadê sua namorada?
– Não põe a Debora nisso. Essa conversa é entre nós três.
Ele voltou à atenção pro Kadu, que até aquele momento só observava.
– Ta satisfeito, seu filho da puta? Conseguiu o que queria. Tirou o Gabriel de mim, ta morando com ele, deve ta se acabando de dar esse rabo imundo! Eu nunca te engoli. Você acha que quando a gente era moleque eu não via a maneira que você olhava pra ele?!
– Você teve a sua chance, cara. Não vem me culpar pelo o seu fracasso. Se você tivesse cuidado bem do que tinha, não teria perdido nem pra mim, nem pra ninguém.
O Kadu falou ligeiramente irritado. Eu olhava ao redor, vendo se alguém se aproximava, receoso daquela cena toda.
– Para com essa merda, Bernardo! Você já não ta namorando, feliz? Pra que tudo isso?
Eu perguntei estressado, tentando acabar com aquilo de uma vez por todas.
– Pra que? Porque eu não consigo ver vocês dois juntos! É demais pra mim. Que você me trocasse por qualquer pessoa, menos por ele. Eu não engulo isso!
– Você não tem que engolir nada! Você fez as suas escolhas e eu as minhas. Agora volta pra sua mulher, que ela deve ta te procurando. E vai curar essa sua bebedeira, porque pra um futuro médico com uma carreira tão promissora, não pega nada bem esse tipo de cena.
Eu falei de forma sarcástica.
– Não antes de acertar as contas por aqui.
Ele disse partindo imediatamente pra cima do Kadu, que desprevenido caiu no chão, fazendo com que os dois rolassem pela grama, até caírem no lago. Eu corri para poder separar, me jogando na água de roupa e tudo, sem me importar com os pertences que estavam no meu bolso. A lama que existia no fundo atolava os pés, dificultando os movimentos e as mãos escorregavam por estarem molhadas. Entre socos e empurrões, cada hora um tentava afogar o outro, mas o Bernardo por estar embriagado, estava em desvantagem, apanhando bastante do Kadu.
Alguém viu e avisou ao resto das pessoas, que vinham correndo agitadas para ver aquela confusão. Pronto, o circo estava armado. Eu agarrei o Bernardo por trás, tentando puxá-lo para acabar com aquela briga sem propósito, mas ele por reflexo me acertou uma cotovelada na costela, que me tirou o folego. Cambaleei para trás, afundando na agua barrenta do lago.
Novamente recuperei o equilíbrio, irritado e saturado daquela confusão e não pensei duas vezes: Acertei um soco na cara do Bernardo, que caiu desacordado na agua. Apressei-me em puxa-lo a tona para que ele não se afogasse.
– Porra Biel, esse soco era meu.
O Kadu falou exaltado.
– Cala boca e me ajuda a tirar ele daqui.
Juntos levamos ele para a margem, onde todas as pessoas do churrasco já esperavam por nós. Alguns amigos nos ajudaram a puxar ele pra fora e deita-lo na grama. A namorada dele estava muito nervosa e eu só queria sair dali, mas não faria isso até saber se ele estava bem.
– Biel, o que aconteceu?
Um amigo nosso, perguntou enquanto se agachava do meu lado.
– Coisa de gente bêbada.
Resumi-me a falar, me debruçando em cima do Bernardo. Dei uns tapas na cara dele para que ele despertasse e assim que ele abriu os olhos, eu disse:
– Babaca!
E me levantei, me afastando daquele tumulto. Entrei no carro, todo molhado e enlameado, esperando pelo o Kadu. Ele me olhou pela janela e falou:
– Porra, vai sujar o carro todo!
– Foda-se, Kadu. Eu só quero ir embora daqui. Entra logo!
Eu falei irritado, não deixando outra opção a não ser que ele entrasse no veiculo e então fomos embora. No caminho ele se desculpou pelo ocorrido, mas na verdade ele só revidou a agressão do Bernardo. Ele bem que mereceu umas porradas. Eu só me perguntava quando aquilo tudo iria acabar, quando eu simplesmente teria paz. A vontade que eu tinha era de me afastar de tudo e de todos, mas isso só seria fugir do problema e não resolve-lo.
Uns dois dias depois, eu estava saindo da academia quando vi o Bernardo encostado sob o capô do meu carro. Travei meu corpo, já esperando por mais confusão, mas ele parecia estranhamente tranquilo. O rosto exibia alguns hematomas e a boca ainda estava um pouco inchada da surra que ele tinha levado do Kadu e do soco que eu tinha lhe dado.
– O que você está fazendo aqui, Bernardo? Pelo amor de Deus, cara! Chega de confusão, eu não aguento mais isso.
– Calma, Biel. Eu vim em missão de paz. Será que a gente pode conversar? Eu não vim pra brigar, eu juro.
Abri o carro e nós entramos. Fiquei olhando pra frente, evitando fita-lo.
– Fala logo.
Eu falei seco.
– Eu vim me desculpar. Eu agi mal naquele dia… acabei bebendo demais e perdi a cabeça. Tenta entender que pra mim é difícil essa situação toda. Ver vocês dois juntos é como uma faca enfiada aqui dentro, machuca demais.
Respirei fundo e olhei pra ele.
– Nós não estamos juntos, Bernardo. Eu e o Kadu somos amigos. Ao contrário do que você pensa, eu não te troquei. Não é possível que mesmo depois desse tempo todo você não enxergue seus erros.
Ele abaixou a cabeça e depois me olhou.
– Sim, eu enxergo. Eu sei que eu não te dei a atenção que você merecia, sei que tive medo daquilo que a gente tinha. Pra mim é doloroso ver que te perdi… mas, eu não quero mais brigar.
– Você acha que pra mim foi fácil te ver com aquela garota? Você não teve um pingo de respeito comigo. Meu Deus, Bernardo você gosta dessa menina? Ou ta usando ela pra me fazer ciúmes, pra me esquecer? Seja sincero.
Ele novamente abaixou a cabeça. Respirou fundo e então começou a falar:
– Eu gosto, mas não a amo. Ela surgiu num momento que eu me sentia carente, perdido, sofrendo. Vi nela uma tábua de salvação e depois que eu soube que você estava morando com ele, me apressei em seguir adiante… eu preciso tentar te esquecer já que você não me quer mais.
– Eu acho que você não sabe o que você quer, Bernardo. E enquanto for assim, não existe qualquer futuro pra gente. Eu só te peço pra parar com tantas brigas, isso daí só nos faz mal, não resolve nada. Se você assumiu o namoro com essa garota, tente de verdade ser feliz com ela. Não a use porque com certeza ela não merece isso. Nem tente levar uma vida dupla, porque isso não é justo com ninguém. Honre as suas escolhas.
Eu disse olhando para ele.
– Tudo bem, Biel. Espero que pelo menos a gente possa ser amigos ou colegas pelo menos…
– Vamos deixar as coisas acontecerem naturalmente, Bernardo. Eu só quero paz pra nós dois.
Ele assentiu com a cabeça e estendeu a mão. Eu apertei e ele sorriu timidamente, fazendo com que eu fizesse o mesmo. Ele saiu do carro e eu ainda fiquei um tempo ali, pensando em tudo que conversamos. É, poderia ser um novo começo para nós dois ou pelo menos o fim de tantos problemas. Fui para casa e contei ao Kadu o que tinha acontecido e ele mais uma vez foi conciliador, dizendo que era o melhor para nós dois que a paz reinasse entre nós.
No dia seguinte, eu acordei mais tarde ouvindo vozes vindas da sala. Coloquei um short, pois tenho a mania de dormir completamente nu e fui ver o que estava acontecendo. Havia uma garota parada na soleira da porta, gesticulando nervosamente e discutindo com o Kadu. Aproveitei que nenhum dos dois me viu e pensei em voltar para o quarto, mas confesso que a curiosidade foi maior e então me pus a ouvir do corredor.
– Cara, eu só quero que você seja sincero comigo. O que ta acontecendo? Você não me procura mais, não responde as minhas mensagens, foge de mim. Você nunca fez isso!
– Kamila, a gente nunca teve compromisso algum, você sabe disso.
Ele falava aparentando tranquilidade.
– Eu sei que não, mas poxa a gente sempre teve um lance legal. Eu sei que você ficava com outras pessoas, mas mesmo assim nunca deixou de sair comigo. Agora eu não te vejo mais com ninguém e simplesmente não quer mais nada comigo. Surgiu outra pessoa?
– Não…
– Você está gostando de alguém?
– Estou..
– Como assim, Kadu? Você ta apaixonado por alguém?!
– Estou…
Ele respondeu em tom de confissão, fazendo meu sangue gelar nas minhas veias. Agora eu não podia fingir que não tinha ouvido. Eu precisava saber se a tal pessoa era quem eu mais temia.

Parte 15

Eu não sou gay…mas

Eu me aproximei dele devagar e olhei bem nos olhos dele.
– Não fala nada. A gente não precisa disso.

– Eu não quero ver arrependimento em você de novo, nem quero ser uma pedra no seu caminho.
– Eu não me arrependi, Kadu.
– Pode ser, mas eu não quero que você surte depois. Afinal a gente ta morando junto e eu não quero estragar a relação que a gente tem.
Abaixei-me e peguei a toalha.
– É você tem razão. Não sei o que me deu. Ta aqui a blusa, você pode pegar quando quiser.
Entreguei a blusa para ele. Ele a segurou e falou:
– Valeu. Tá bravo?
– Não rs. Claro que não.
Eu respondi sorrindo e ele foi saindo do quarto, mas parou e falou:
– Biel, você sabe que da minha parte não ia mudar nada. Sou um cara que gosta de aproveitar os momentos e procuro não complicar as coisas. Minha preocupação é você.
– Eu sei e foi legal da sua parte. Eu às vezes ajo por impulso, mas sei que com você eu posso ficar tranquilo.
– É isso aí, brother. Bom, vou me arrumar e ir pra rua. Quer ir?
– Não. Vou ficar de boa em casa. Divirta-se.
Eu disse sorrindo.
Depois de um tempo ele saiu e eu fiquei sozinho em casa. Resolvi não me preocupar com isso e deixar rolar. Afinal eu estava solteiro, ele também e as coisas eram bem resolvidas entre a gente. Estudei um pouco, comi alguma coisa e depois assisti a um filme na TV. Adormeci.
Algum tempo se passou, sem que nada de importante acontecesse. Minha rotina estava puxada e quase não me sobrava tempo. Via o Kadu a noite e conversávamos um pouco antes de dormir. Apesar dele andar semi nu pela casa e ter uma sensualidade natural, ele não forçava a barra pra nada, me deixando muito a vontade.
Num final de semana, resolvi andar um pouco de skate aproveitando a manhã que estava bonita. Tentei acordar o Kadu a todo custo, mas a gente tinha saído na noite anterior e estava pregado na cama. Sacudi, gritei e ameacei jogar água fria, mas ele mal abriu o olho. Por fim deixei um bilhete dizendo onde ia.
Fui a um parque bonito da cidade e lá comecei a andar, pegando impulso e sentindo a brisa no meu rosto, completamente absorto com meus fones no ouvido. Depois de um tempo, parei próximo a um banco para descansar um pouco e perto aos quiosques, eu avistei um rapaz que eu reconheci imediatamente.
Ele estava acompanhado de algumas pessoas e ao me ver se distanciou delas e caminhou em minha direção.
– Não esperava te encontrar aqui.
– Muito menos eu, Bernardo. Eu achei que você tivesse em outra cidade fazendo um curso.
Eu disse um pouco desconfortável com a presença dele ali.
– Pois é, cheguei ontem. Ta um dia tão bonito, eu resolvi dar um passeio com uns colegas de faculdade.
– Saquei.
Eu disse sem querer prolongar muito o assunto. Na ultima vez que nós nos vimos o clima ficou muito tenso e eu não queria repetir qualquer cena em público.
– Por acaso você não está morando mais com a sua mãe?
Ele perguntou de maneira seca.
– Por que você ta me fazendo essa pergunta?
– Porque o assunto corre, mas eu queria saber de você.
Eu respirei fundo e pensei se devia ou não responder a ele, com medo da sua reação, mas eu não estava nem um pouco afim de ficar me escondendo. Afinal, ele não tinha nada a ver com isso.
– Eu fui morar com o Kadu.
Ele olhou pra mim revirando os olhos, demonstrando nojo da situação.
– Nossa, Gabriel! Você não perdeu tempo, né? Caralho! Morar com o cara? A gente ficou um ano juntos e não fizemos isso e você em uma semana correu pra lá.
Tentei me controlar ao máximo, puxando o ar para encher meus pulmões e então falar:
– Bernardo, não é assim da maneira que você ta falando. Eu estou dividindo o apartamento com ele, não estamos juntos. E você fala como se eu tivesse te largado e corrido pra outra pessoa e você sabe que não foi assim. Já se passaram meses.
– Vai me dizer que vocês não estão transando?
– Isso não é da sua conta, mas não. Não estamos. E eu não te larguei! Acabou, muito por culpa sua.
Ele cruzou os braços contra o peito.
-Ah claro, né Gabriel? Fácil falar que a culpa foi minha. Você foi radical e muito incompreensivo. Eu falei de uma vontade que eu tinha só para a nossa a segurança e você surtou. Além de jogar a minha falta de tempo na minha cara, sendo que eu faço medicina. Eu pensava no nosso futuro.
– Bernardo, não se faz de vitima. Você sabe o que aconteceu. Você deixou a desejar em várias coisas, flertava com garotas na minha frente e tava mais preocupado com o seu curso que com a gente. Cara, não adianta discutir … Isso só faz mal a nós dois, será que você não percebe? A verdade é que acabou.
– Acabou pra sempre, é isso?
– Eu não sei Bernardo, eu…
Nisso uma moça se aproximou e o chamou.
– Be, a gente já ta indo. Vamos?
Ele olhou pra mim, que desviei o olhar. Ficou um clima chato, um silêncio breve, mas incomodo.
– Bom, tenho que ir. A gente se fala.
– Tudo bem, valeu.
Eu disse pegando o skate e andando para longe. Depois pensei na minha falta de educação de nem ter cumprimentado a garota ou me apresentado, mas não fazia diferença alguma naquele momento. Peguei-me, me perguntando quem era aquela menina ou que tipo de relação que eles tinham, porém sabia que aquilo não era problema meu.
Voltei pra casa e encontrei o Kadu ainda adormecido na mesma posição. Acordei-o e contei o que tinha acontecido, ressaltando o meu desconforto com aquela situação toda. Ele me acalmou dizendo que agora nós dois deveríamos aprender a lidar com isso e que era para eu relaxar, deixando as coisas acontecerem. Foi o que eu fiz.
Um tempo se passou na qual eu mergulhei na minha rotina, me dedicando ao máximo a faculdade e ao meu trabalho. Via o Bernardo às vezes na rua e em alguns lugares, mas a maioria das ocasiões eu conseguia passar despercebido.
Certa noite, estava eu e o Kadu em casa jogando videogame, tomando umas cervejas. Estava frio e tinha chovido o dia todo, desanimando a gente de sair de casa. Eu estava ganhando no jogo, o que o deixava charmosamente irritado. Estávamos sentados no tapete da sala, quando de repente ele se levantou:
– Porra, eu to morrendo de frio. Essa cerveja ta me gelando ainda mais. Precisamos de algo mais forte pra aquecer.
– Aff Kadu, põe mais um casaco, é mais fácil.
– Que mané casaco. Eu ainda tenho aquela garrafa de tequila que ganhei de natal. Bora?
– Você e suas atitudes extremas, né? Ta bom na cerveja, pra que isso?
– Ah Biel, você uma bicha. Uma bicha covarde. Hahahaha.
Ele disse rindo, se encaminhado a cozinha e voltando com um prato com limões cortados e sal, a garrafa e dois copos. Ele sentou-se novamente no chão, depositando os itens na nossa frente.
– Vai arregar, viadinho?
Ele perguntou com o tom malicioso.
– Cara, isso não vai prestar. Eu acho que você ta querendo me embebedar para poder ganhar no jogo. Que feio, sr. Kadu.
– É, você me conhece muito bem. Agora para de enrolar.
Ele disse servindo as doses e me dando uma fatia de limão. Lambi o sal na mão, engoli o liquido ardente e chupei o limão em seguida.
– Arrrrhhhh. Caralho! Você é um demônio na minha vida, já te disse isso?
Perguntei, ainda me recuperando da golada que tinha dado.
– Nunca quis ir pro céu mesmo. Isso é para os chatos. Hahaha.
Ele disse rindo, servindo mais uma dose para nós dois. Bebemos e continuamos a beber, até que a garrafa chegasse à metade. Inevitavelmente, caímos no assunto sobre sexo e ele começou a contar suas peripécias.
Narrava com desenvoltura suas aventuras, exagerando nos gestos, caras e bocas, o que me excitava muito. Eu tentava disfarçar ao máximo, controlando meus instintos, mas a bebida dificultava tudo.
– Fecha os olhos.
Ele pediu olhando para mim. Eu imediatamente fechei, sem ao menos perguntar para que. Senti a ponta da sua língua percorrer meu pescoço, subindo a minha orelha para depois a morder devagar, sugando a pontinha. Um arrepio me percorreu o corpo todo, me fazendo soltar um gemido baixo e rouco pela boca.
– Eu gosto de fazer isso na pessoa.
Ele me disse maliciosamente, fazendo com que eu abrisse os olhos. Olhei pra ele e disse:
– Vou te mostrar o que eu gosto de fazer.
Puxei-o com força, fazendo o sentar no meu colo, de frente pra mim. Abocanhei seu pescoço, sugando sua pele, mordendo em seguida. Minhas mãos apertaram a sua cintura, pressionando sua bunda contra o meu pau que estava duro como uma rocha. O fiz rebolar, com força, fazendo-o sentir a dureza do meu membro.
Arranquei sua roupa sem cuidado algum, sentindo o tecido esgaçar entre meus dedos urgentes. Mordi seu ombro e desci pelo seu peito, arranhando-o com os dentes até chegar ao seu mamilo. Suguei, puxando a pontinha com os dentes, fazendo- o gemer de olhos fechados.
Ele deitou-se na minha frente, mordendo os lábios fazendo uma cara safada, que só me incendiou ainda mais. Tentou me puxar, mas eu segurei suas mãos acima da sua cabeça e continuei a descer pela sua barriga, mordendo e chupando as laterais, metendo a língua no seu umbigo.
Mordi sua cueca e fui puxando-a, tirando-a devagar, enquanto olhava para ele. Subi novamente, arranhando sua canela com os dentes, subindo pela coxa, a qual eu mordi com força, chegando à virilha a qual eu passei a língua, mordendo em seguida. Ele gemeu mais alto, se contorcendo de tesão. Lambi seu saco, sugando as bolas devagar, para depois subir com a língua da base até a cabeça, contornando-a e sugando-a de leve. Engoli seu pau de forma faminta, chupando de maneira desajeitada, mas gulosa, o fazendo arfar em gemidos.
Chupei por alguns minutos e quando senti sua rola latejar, eu parei. Virei ele com força, colocando-o de quatro e dando um tapa forte na sua bunda.
– Ahhh Caralho Biel, me come, vai. Me fode agora!
– Ainda não.
Eu respondi maliciosamente, abrindo sua bunda com as mãos, exibindo o seu buraquinho que piscava loucamente. Passei a ponta da língua em volta, fazendo-o praticamente urrar. Fiquei brincando, provocando, até que esfreguei a língua com força no seu cú, que se contraiu imediatamente junto a um gemido alto dele. Linguei, chupei e me demorei ali, experimentando as sensações que isso causava nele. Nunca tinha feito isso e não era a coisa mais agradável do mundo, mas o jeito que ele demonstrava estar louco com aquilo, me enlouquecia também. Peguei seu pau, que babava muito e o punhetei de leve, fazendo- o gritar.
– Por favor, pelo amor de Deus, me fode. Eu não aguento mais, to pra gozar já.
Então eu sorri, posicionando minha rola na entradinha e esfregando com força, sentindo as preguinhas piscarem na cabeça do meu pau. Segurei com força a sua cintura e forcei, fazendo entrar a cabeça. Ele se contraiu, apertando os olhos, mas puxando a minha coxa, fazendo entrar ainda mais. Atendi o seu pedido, dando uma estocada forte, fazendo entrar o resto.
Ele gemeu alto, mordendo os lábios e apertando com força a minha perna em sinal de dor. Parei um pouco até que ele se acostumasse e assim que senti que era o momento, tirei ate a cabeça, rodando a pica devagar e voltei a enfiar. Comecei a bombar forte, entrando e saindo de dentro dele, lhe dando uns tapas na bunda que só aumentavam o volume dos seus gemidos.
O fodi com vontade, batendo com o meu saco contra a sua bunda, sentindo minha rola ir fundo nele. Puxei-o com força pelo cabelo, fazendo suas costas grudarem suadas no meu peito e o fiz rebolar, enquanto mordia a sua nuca. Ele jogava a cabeça para trás, gemendo muito e me incentivando a continuar.
Sai de dentro dele e o joguei no chão, de barriga pra cima, levantando suas pernas e enfiando-me novamente dentro dele. Minha boca encontrou a sua e nos beijamos de maneira faminta, com as línguas enroscadas, alternando quem sugava qual. Ele arranhava minhas costas, envolvendo a minha cintura com as pernas, fazendo com que eu entrasse ainda mais fundo.
Eu revezava os movimentos, ora mais rápidos e depois mais lentos, rodando o quadril quando me encontrava totalmente enterrado no seu cu. Ele se contorcia, mordia meu ombro, me xingava e implorava que eu continuasse.
Então eu retomava as estocadas mais fortes e mais rápidas, para depois tortura-lo mais um pouco. Não se dizer quanto tempo ficamos ali, transando intensamente, sem nos preocuparmos com mais nada.
Senti que não dava mais pra segurar, que nós dois estávamos no limite do nosso tesão. Então o segurei com força e bombei mais rápido e profundo, ouvindo seus gemidos ficarem tão urgentes quanto os meus, segurando suas mãos, até que explodimos praticamente juntos em um orgasmo absurdamente intenso. Ele esporrou na minha barriga, jatos longos e espessos, sem ao menos se tocar, enquanto eu inundei seu cu com tanta porra que chegou a escorrer.
Cai por cima dele exausto e ofegante, sentindo ele praticamente desfalecido embaixo de mim. Dormimos ali mesmo no chão da sala, embolados, com os corpos quentes e suados, sentindo-nos leves e satisfeitos.
No dia seguinte acordamos e a naturalidade com que o Kadu agiu, não me deixou constrangido ou preocupado com o que rolou. Nem falamos sobre o ocorrido, somente as marcas em nossos corpos denunciavam o que tinha acontecido entre nós. Com ele tudo era tão leve e natural, que eu me sentia feliz de ter essa relação de “amizade colorida” com ele.
No fim de semana, tínhamos um churrasco para ir em comemoração ao aniversário de uma amiga. Chegamos à chácara da sua família, que era um pouco afastada da cidade, ainda no começo da tarde. Cumprimentamos a todos e nos sentamos com o grupinho de sempre.
Algum tempo depois, avistei o Bernardo chegar acompanhado de uma garota, aquela que estava com ele no parque. Disfarçadamente eu levantei, indo até a churrasqueira com a desculpa de pegar algo pra comer. Enrolei por lá, batendo papo com algumas pessoas, até eles vieram até ali. Não tinha como eu sair novamente, sem demonstrar que era proposital, então me mantive parado.
– Oi Gabriel, eu queria te apresentar a minha namorada, a Debora.

Existem diferentes tipos de casal. Alguns são inseparáveis, enquanto outros mal andam de mãos dadas. Alguns falam o tempo todo, enquanto outros preferem ficar mais na deles. O amor é assim: variado e multicolorido <3

Não é exagero dizer que cada casal é único, pois cada indivíduo é único também. Em um relacionamento, existe todo um conjunto de particularidades.

Ao mesmo tempo, a interação modela de maneira específica cada relação. No entanto, também existem recursos comuns que nos permitem definir diferentes tipos de casal. Veja quais desses é o seu:

1. Loucamente apaixonado

Este é um daqueles tipos de casal que todos nós já vimos. Eles são loucamente apaixonados um pelo outro e não fazem nada para disfarçar tal afeição. Muito pelo contrário: eles precisam constantemente gritar ao mundo que se amam.

São aqueles que, quando estão juntos, não param de se acariciar, beijar e dizer palavras doces. Eles não podem viver um sem o outro e muitas vezes ignoram o mundo quando estão juntos. Geralmente é apenas um estágio, pois muita paixão também esgota rapidamente as reservas de interesse.

2. Os melhores amigos

O que mais caracteriza esse tipo de casal é que eles conversam bastante. Você quase sempre os vê falando sobre determinadas situações que aconteceram em suas vidas. Eles não são muito propensos a ter expressões de afeto em público. E quase nunca compartilham os detalhes de seu relacionamento com outra pessoa.

Há muito conhecimento e cumplicidade entre eles. Eles parecem dois amigos que se conhecem há muito tempo e acabaram se apaixonando. Eles são geralmente os casais mais duráveis.

3. Os brigões

Todos nós também já vimos um desses casais que são inseparáveis, mas não fazem nada além de brigar. Se ele diz branco, ela diz preto e vice-versa. Não é incomum que eles terminem o relacionamento várias vezes ao longo do tempo.

Eles são casais apaixonados que fazem do conflito uma espécie de tempero para o relacionamento. E mesmo que vivam como cães e gatos, não causam grandes ofensas mútuas. Suas brigas constantes são mais como um jogo de reafirmação. Eles são quase sempre muito duráveis.

4. Aventureiro

Os dois gostam muito de alguma atividade que provavelmente não é tão comum. Algo como escalada, paraquedismo, ou dançar tango. Eles são freqüentemente unidos por um hobbie em comum.

A paixão pelo seu hobby se torna ainda mais forte quando é compartilhada. Esse elemento geralmente se torna um pilar muito sólido para o relacionamento. É, por assim dizer, o elemento em que tudo sempre se reúne. Esses casais também costumam ser bastante unidos.

5. O sociável

São esse tipo de casal que se reúne principalmente para realizar alguma atividade social. Ambas as reuniões de amor de qualquer natureza, cocktails, almoços, festas e todos os tipos de situações acontecem onde muitas pessoas estão reunidas.

Eles se comportam mais como companheiros do que como um casal. Entre eles, geralmente não há muita paixão nem muita intimidade. O que existe é uma necessidade profunda de ter alguém para se abrir para o mundo.

6. O casal intenso

O tipo de casal intenso é aquele que os dois realmente se amam e têm um amor bastante sereno, no qual há muitas expressões de afeto. São casais que estão juntos há muito tempo e aprenderam a superar diferenças e conflitos.

Cada membro desse tipo de casal tem uma vida individual intensa, mas também tempo um para o outro. Eles nem sempre concordam em suas decisões. Seu amor muda de intensidade, sofre altos e baixos. No entanto, eles permanecem juntos porque sabem que há uma conexão sólida apesar da mudança.

Conclusão:

O que diferencia esses tipos de casais é o fator que promove o vínculo e a qualidade do relacionamento. Todos eles podem se tornar o que chamamos de “um casal que realmente se ama”. Amar de verdade é isso: aceitar a imperfeição do outro, mas, ainda assim, continuar lutando pelo relacionamento.

Pet play, o fetiche do BDSM em que pessoas imitam animais

Durante a encenação, praticantes se caracterizam como animais específicos e até imitam sons para satisfazer seus donos; conheça o pet play

RESUMO

  • Pet play é um jogo de encenação em que uma pessoa é um animal e a outra interpreta o dono
  • Gatos, cachorros, cavalos e porcos podem ser encenados
  • Prática não é apenas sexual e pode ser realizada por até semanas
  • Apesar de envolver encenação de animais, prática não tem relação com zoofilia

Já se imaginou tendo relações sexuais enquanto interpreta o papel de um gato ou chegando em um bar rastejando de quatro e levado por uma coleira? Essas práticas existem e estão longe de ser algo considerado esquisito para quem é adepto do pet play. A prática, que está dentro do BDSM , consiste em um jogo de submissão em que uma pessoa imita um animal doméstico, enquanto outra desempenha a função de treinador ou dono.

Essa encenação pode durar horas, dias e até semanas. O pet imita os comportamentos de um animal pré-definido, seja filhote ou adulto, enquanto o dono ensina truques, faz elogios, dá recompensas ou pune por erros. Todos os atos dentro do pet play, até as punições, são consensuais entre as pessoas participantes.

O pet play pode ou não ser um jogo erótico. “No BDSM, as práticas não necessariamente envolvem sexo. Por ter conotação de brincadeira, disciplinadora e, às vezes, até mesmo terapêutica”, pontua. Como estabelecido dentro do BDSM, o jogo geralmente é baseado em uma hierarquia de comando, submissão e obediência.

Para aprimorar a prática, participantes podem utilizar apetrechos como coleiras, correntes, mordaças e chicotes. Nesse contexto, eles podem ser usados para fazer o adestramento do pet. Os desejos dos participantes podem ir de carinhos e lambidas até a palmadas corretivas e humilhações.

A ligação entre o pet play e as pessoas LGBTQIA+ é muito forte, tanto que há diversos integrantes que conseguem transparecer na prática e nos fetiches as próprias experiências. “Mesmo que uma parte da população veja a comunidade BDSM como excêntrica, existe uma maior probabilidade das pessoas LGBTQIA+ estarem bem com elas mesmas pela própria expressão de suas sexualidades”.

Pessoas que são vistas pela sociedade como “excêntricas” são mais propensas a ter uma saúde mental melhor do que as que não aceitam seus desejos. “Falar e expor suas fantasias é tanto uma transparência do que se deseja, quanto uma pré negociação com o consentimento da parceria para viver uma fantasia”.

Pet play pode ir além das quatro paredes

O pet play é uma prática que não é totalmente erótica e, com isso, ela acaba transbordando para a vida pública. As interpretações podem durar horas, dias e até semanas, dependendo do combinado entre as pessoas integrantes.

Os locais mais frequentados por adeptos do pet play são festas fetichistas e bares temáticos. “Nestes locais os donos e adestradores podem até servir petiscos no chão”. Encontros públicos e casais que optam por continuar a prática em shoppings, por exemplo, também existem. No caso de quem decide desempenhar funções corriqueiras, como ir às compras, o pet anda de quatro e pode usar coleira e focinheira.

O prazer causado pelo pet play

Rê conheceu o pet play em um concurso no Dominatrix Augusta, bar temático em São Paulo. “Fizeram um concurso de pet e eu participei, ainda sem perceber a questão de pet ser de estimação. Fui de tigresa”, lembra.

Rê conta que esse primeiro contato foi interessante para colocar para fora seu lado animal. Um ano depois, começou a praticar. “O pet play me proporciona a possibilidade de viver o meu lado instintivo, sem travas sociais”.

No geral, adeptos à prática sentem prazer ao poder liberar a própria fantasia, desde que isso seja feito de forma consensual e que respeite o limite entre a saúde e o mal estar. “Se pararmos para pensar, a maioria das pessoas omite, reprime ou sabota os desejos sexuais. Entretanto, cada pessoa tem na individualidade e em seu universo de desejos a capacidade de se soltar um pouco mais e até mesmo se libertar das amarras da vida cotidiana durante o sexo”.

Tem-se a ideia de que praticantes de pet play (e de qualquer outra prática sexual não convencional) são pessoas “esquisitas” ou “perigosas”. Na verdade, elas podem ser de qualquer tipo. “O que acontece ao chegar em casa é que cada um assume seu novo papel, retirando a pressão e libertando-se dos pudores e preconceitos. Isso pode aumentar significativamente tanto a excitação sexual como tornar a vida mais leve e divertida no dia a dia”.

“A brincadeira pode ser uma atividade muito divertida quando as pessoas mergulham de cabeça na interpretação. É uma oportunidade de tirarem uma folga da vida comum e permite também a inversão de papel assumido para a sociedade. É comum que pessoas em posição social de liderança e autoridade se submetam aos comandos de alguém durante a brincadeira. Isso significa tirar o peso e estresse em ser alguém preso a uma rotina, virando durante alguns momentos um bichinho inocente e brincalhão”.

É necessário observar como esses desejos têm sido explorados na prática. Caso a pessoa praticante fique muito dependente ao fetiche e só consiga sentir prazer dessa forma, pode ser importante procurar um especialista. “Fantasias são imagens mentais que despertam o desejo e erotismo da pessoa e deixam de ser saudáveis quando se tornam indispensáveis para o prazer”, justifica.

Rê recomenda que, antes de praticar, as pessoas pesquisem sobre o pet play e sobre BDSM em geral para não cair em ciladas. “É preciso ter muito cuidado em qualquer situação. Gente ruim existe em todo lugar”, adverte.

Pet play não tem a ver com zoofilia

As práticas sexuais não convencionais, principalmente as que são englobadas no BDSM, tendem a ser vistas com maus olhos e de forma equivocada por quem está de fora desse nicho. Um dos principais mal-entendidos ligados ao pet play é de que esse fetiche está diretamente ligado à zoofilia; ou seja, sentir desejo por animais.

“Na prática, o pet play não possui qualquer relação com isso e é totalmente abominável entre os praticantes”. Rê complementa que, por mais que a prática envolva a interpretação de animais, quem está ali ainda é um ser humano capaz de fazer escolhas e ciente do que está acontecendo. “Por mais que se assemelhe ao animal em comportamento, não se parece fisicamente. Não tem nem como confundir. Para mim, isso é coisa de gente que não vê nada além de sexo hétero e influência religiosa demais”, rebate.

Quando o ato não tem relação com o desejo sexual, pessoas de fora da prática podem tentar ridicularizar as cenas e os desejos das pessoas envolvidas. No entanto, ao deixar os julgamentos de lado, a prática pode ser vista como amigável e até mesmo fofa.

“Muitas pessoas acham interessante porque já estão mais acostumadas com a questão do cosplay, que consiste em se fantasiar e interpretar personagens de filmes e histórias em quadrinhos. Outras ainda precisam de uma boa dose de educação e imaginação”.

Parte 14

Eu não sou gay…mas

O Bernardo perguntou furioso, enquanto minha cabeça pensava freneticamente o que dizer.
– Não precisa responder não, eu sei exatamente da onde veio essas marcas. Tenho certeza que esse filho da puta também tem.

Ele disse, partindo pra cima do Kadu e lhe puxando a blusa com força, rasgando o tecido facilmente. Me sobressaltei com a atitude dele, mas não tive tempo de evitar que a blusa fosse destruída.
– Que isso, Bernardo! Você ta maluco?! Olha o que você fez!
Eu disse tentando me aproximar do Kadu, que estava chocado demais para se pronunciar ou tomar uma atitude.
– Maluco é o caralho! Olha ai, não falei?! O corpo desse filho da puta ta cheio de marca também! Eu não to acreditando que você fez isso!
– Ei, que você pensa que é?! Isso não é da sua conta!
Eu falei bravo, tentando acabar com aquela palhaçada toda, mas ele foi mais rápido que eu. Puxou o Kadu e lhe deu um empurrão, que revidou em seguida jogando o Bernardo em cima da minha escrivaninha. Tentei me meter no meio, mas fui empurrado com violência, me desequilibrando e caindo próximo a cama.
Os dois se embolaram, entre socos e pontapés, rolando pelo chão enquanto eu tentava em vão separar. Puxei o Bernardo com força, tirando-o de cima do Kadu, que ainda conseguiu acertar mais uma porrada no seu oponente.
– Para com essa merda vocês dois! Que isso, você ficou maluco, Bernardo?! Você ta na minha casa, caralho!!
– Seu filho da puta desgraçado! Era isso que você queria o tempo todo! Tanto fez que conseguiu que o Gabriel te comesse, né? Sua piranha!
– Não me culpe pela sua incompetência, seu babaca! Você o perdeu porque é um idiota!
Os olhos do Bernardo faiscaram de raiva e mais uma vez ele partiu pra cima do Kadu, mas dessa vez eu o segurei.
– Para com essa porra! Quem você pensa que é pra tirar satisfação dessa maneira?! Eu não tenho mais nada com você e você já mostrou que ta em outra, muito bem. Você não tem o direito a nada!
Eu falei gritando, furioso olhando para o Bernardo.
– Do que você ta falando?!
Ele perguntou de maneira nervosa.
– Na noite passada você tava todo feliz abraçado a uma garota. Eu vi e você sabe disso. Você deixou bem claro ali que já tava seguindo com a sua vida e só o otário aqui que ainda não.
Ele olhou bem pra mim e então cruzou os braços.
– Então foi por causa disso que você fez o que fez? Você nem sequer falou comigo e correu pra casa do amiguinho pra ter uma boa desculpa para fuder ele a noite toda.
Eu olhei pro Kadu que estava encostado a parede, já sem a camisa que se encontrava mutilada no chão. Ele devolveu o olhar, respirando fundo mostrando falta de paciência.
– Como eu te disse, isso não é as sua conta. Agora, vaza daqui porque você nem devia ter vindo!
– Só pra o seu conhecimento, aquela era a minha prima. Ela veio de outra cidade pra passar uns dias aqui com a minha tia e eu me obriguei a levar ela pra aquele show. Eu queria te explicar, mas você virou as costas e saiu sem nem ao menos dar chance a isso.
– Prima?
Eu perguntei confuso, pois não esperava por isso.
– É. Eu teria te apresentado ela, se você não tivesse saído correndo e agora eu sei pra fazer o que. Não fui eu que segui com a minha vida. Foi você! Essa cobra que você chama de amigo, conseguiu o que sempre quis!
– Ei, olha bem como você fala porque você que foi o culpado por tudo isso..
O Kadu começou a falar, mas foi interrompido pelo Bernardo que continuou a falar.
– Cala boca! Eu não quero mais ouvir a sua voz! Na real, nenhum de vocês dois! Isso tudo é nojento demais!
– Bernardo, veja lá o que você vai falar! Você mesmo me falou que tava afim de ficar com outras garotas, que não tinha tempo pro nosso relacionamento. Independente do que eu ou você fizemos depois disso, você não tem o direito de me cobrar nada. A gente não ta mais junto!
Ele olhou bem nos meus olhos, se aproximando.
– Você tem razão, a gente não ta mais junto. Acho que demorei demais pra perceber isso. Você sim já se desprendeu, enquanto eu ainda me sentia tão seu… Agora vendo essas merdas de marcas pelo seu corpo e principalmente no dele, eu vejo que o que a gente tinha de especial foi perdido. Seja feliz, Gabriel.
Ele disse e saiu do quarto. Ficou um silêncio incomodo, no qual nenhum de nós dois falávamos nada e então eu me sentei na cama. Minha cabeça rodava e eu respirava fundo tentando me acalmar. O Kadu se manteve encostado à parede e foi escorregando o corpo, até sentar- se no chão. Olhei pra ele e então me dei conta que ele poderia estar machucado.
– Você está bem? Ele te machucou?
– Ate parece né, Biel? Precisaria bem mais que isso. E eu só não dei uma boa surra nele, porque você não deixou.
Eu esfreguei a testa, me sentindo cansado e confuso. “Que merda! Será que eu não conseguia ter paz”.
– Não ia deixar vocês se porrarem até não querer mais. Ainda mais na minha casa, no meu quarto.
– Foi mal, cara. Eu não consegui evitar, quando ele veio pra cima de mim, eu perdi a cabeça. É impressão minha ou você ficou balançado quando ele falou que a tal garota era prima dele?
Eu olhei bem nos olhos dele e sabia que mesmo que quisesse não iria conseguir negar o que estava estampado na minha testa.
– Eu não esperava por isso. Na minha cabeça estava tão certo que ele já estava em outra, que o fato de não ser aquilo que eu estava pensando me desestabilizou.
– Sei qual é.
Ele respondeu, deixando claro que não queria se meter muito nesse assunto.
– Também quem garante que ele não ficou com outras? Aquela até poderia ser a prima dele, mas isso não o impede de ter pegado tantas por ai.
Eu falei tentando me convencer daquilo que eu estava dizendo.
– Pode ser, mas eu acho que não foi só isso que mexeu contigo e sim o fato dele jogar na sua cara a nossa foda e tal.
Abaixei a cabeça. Sim, era verdade. Ele falar daquela maneira que eu tinha jogado no lixo tudo de especial que tínhamos por ter transando com o Kadu mexeu comigo. Por mais que eu soubesse que ele não tinha direito nenhum de me cobrar nada, doeu o ouvir falar daquela maneira.
– Um pouco, talvez…
– Você se arrependeu, é isso?
Eu olhei pra ele e me apressei em falar.
– Não! Claro que não. Aconteceu porque tinha que acontecer e foi muito bom. Você não tem culpa de não ter dado certo entre o Bernardo e eu. Se terminou, isso coube a nós e só a nós.
Ele levantou e me deu a mão, me puxando ao seu encontro. Abraçou-me forte e disse:
– Se vocês tiverem que se entender, isso vai acontecer. Só saiba que eu vou estar do seu lado, como sempre estive. Eu desejo a sua felicidade e nada mais. Eu não quero que você se sinta obrigado a nada e não vou ficar no meio de vocês.
Eu sorri meio sem vontade, mas grato por ele ter me dito tais palavras.
– Valeu Kadu. Eu sempre pude contar com você e você é muito especial pra mim.
A partir daquele dia, eu tentei esquecer tudo aquilo. Soube pelos outros que o Bernardo ia fazer um curso em outro município e me senti aliviado por isso. Seria bom pra nós dois manter essa distância, aproveitar esse afastamento para colocar os pensamentos em ordem.
Um mês se passou e aos poucos eu fui retomando a minha rotina. Dava meus treinos, ia a faculdade e tentava me esforçar ao máximo para concluir aquele período. Em pouco tempo eu iria me formar e precisava dar o melhor de mim.
Um final de semana, o Kadu passou lá em casa, me encontrando esparramado no sofá vendo TV.
– Nossa, que programaço, hein?
Ele disse, se sentando do meu lado.
– Pra mim tá ótimo aqui, ta?
– Nossa, Biel. Ta um dia lindo lá fora. É um desperdício você ficar trancafiado em casa. Bora fazer alguma coisa?
– Hum, não. Quero ficar de boa em casa.
– Credo, que desanimo! Olha, eu vim aqui por outro motivo também.
– O que ta pegando, Kadu?
– É que aquele meu colega que tava rachando o apê comigo vai morar com a namorada e eu não consigo dar conta das despesas. O que você acha de ir pra lá?
Eu franzi a testa, me sentindo surpreso pela proposta.
– Ta me chamando pra morar contigo?
– É, morar lá no apê, dividir as paradas. Eu confio em você e a gente se dá bem. Me sentiria mais seguro se fosse você. Não queria ter que anunciar vaga de quarto. Além disso, seria bom pra você ter seu espaço, sair da barra da saia da sua mãe.
Eu olhei pra ele, me sentindo confuso.
– Ah, eu não sei Kadu. Eu e você…morando juntos..
– O que foi? Você acha o que, que seriamos um casal? Me poupe, né? To te chamando porque você meu brother e não pra te amarrar. Além disso, por mais gostoso que você seja, eu não preciso ficar te caçando.
Ele disse sorrindo.
– Eu não sei.. Acho que tenho que pensar a respeito. Eu te dou uma resposta ainda nesse fim de semana, ok?
– Ta bom, só não demora porque se você não topar, vou ter que ir atrás de alguém.
Ele ainda tentou me convencer a sair e fazer alguma coisa, mas eu estava morrendo de preguiça. Ele se foi e eu fiquei pensando por horas no que ele tinha me proposto. Quem não quer sair de casa e ter seu canto, ter liberdade e poder ser independente?
Era um desejo antigo, mas eu não sabia até que ponto isso seria positivo sendo com o Kadu. Ao mesmo tempo, eu não podia me esquecer que ele sempre foi meu amigo e aquilo que rolou somente uma vez não tinha obrigação de acontecer de novo. Nós éramos adultos e ele era um cara tranquilo, que nunca me cobrou nada e respeitava meu espaço.
Conversei com a minha mãe a respeito e apesar do drama de perder o filho mais velho pra vida, ela me apoiou. Fez-me jurar milhões de vezes que eu iria visita-la várias vezes por semana e que eu não iria fazer do apartamento um bordel. Coisas de mãe e eu quase assinei promissória das promessas que ela me obrigou a fazer.
Naquele fim de semana mesmo eu dei a resposta a ele, que ficou radiante. Na semana seguinte eu já levei as minhas coisas e me acomodei. O quarto não era grande, mas coube a minha cama de casal e uma pequena cômoda. Não levei todas as minhas roupas ou pertences, só aqueles que eu usava mais.
Naquele dia mesmo comemoramos a minha chegada, bebendo até tarde e assistindo vários DVDs de shows. Confesso que a leveza e a alegria do Kadu me faziam rir e me sentir bem, tranquilo. Era fácil conviver com ele, que apesar de bagunceiro e péssimo cozinheiro, era parceiro e muito bem humorado.
Aos poucos fui me acostumando ao novo ambiente e já podia chamar o apartamento de minha casa. Passava o dia todo fora, só voltando bem a noite, a tempo de comer e logo ir dormir. Aos finais de semana, ele conseguia quase sempre me arrastar pra rua e acabávamos nos divertindo muito. Por insistência dele, eu fiquei com uma garota que há muito tempo vivia atrás de mim e era muito bonita de fato, mas vi que não seria nada que durasse mais que uma noite. Eu não estava preparado pra me relacionar novamente e foi bom pra eu poder me dar conta disso.
Apesar de sempre ver o Kadu rodeado de meninas, ele até que estava bem sossegado e nunca o vi levar mulher para casa. Talvez pelo fato dele achar que eu não me sentiria bem, o que eu até concordava, pois sempre gostei de ter privacidade. A vida seguia normal, sem grandes acontecimentos.
Um dia cheguei em casa mais cedo e o encontrei deitado no sofá, adormecido vestindo somente uma cueca boxer branca. Mesmo eu fazendo barulho ao entrar, ele não despertou e mesmo sem ter a intenção de olhar, eu fiquei o observando. Ele estava deitado de bruços, com a bunda formando um grande contorno redondo no tecido. “Nossa, que bundão”. Eu constatei em pensamento. Eu sempre olhei tão rápido, desviando o olhar na maioria das vezes que nunca tinha reparado esse atributo. As pernas levemente torneadas e com poucos pelos, estavam abertas e um pouco flexionadas.
Sem me dar conta, meu pau foi ficando duro, enquanto eu me deixava observar ele dormindo. Ele se mexeu e eu de susto dei um pulo para trás, derrubando um copo que estava no balcão de granito que separava a sala da cozinha. Ele acordou sobressaltado e me olhou assustado, sorrindo em seguida percebendo que era eu.
– Nossa, você quer me matar?!
– Foi mal, Kadu. Eu..eu… cheguei agora.
– Tudo bem, cara. Nossa, eu tava dormindo de babar. Saiu mais cedo?
– É.. eu..não vou pra faculdade hoje. Não tem aula.
– Ah tá. Nossa quanta animação, hein?
Ele disse, apontando com a cabeça em direção ao meu pau que estava estufado na calça, formando um imenso volume. Eu fiquei vermelho na hora, tentando colocar a mochila na frente, fazendo- o rir.
– Palhaço. Eu vou tomar um banho.
Eu disse muito sem graça, me encaminhando ao banheiro. Debaixo do chuveiro, eu dei um jeito de aliviar aquele tesão todo, batendo uma punheta gostosa. Sai do banho me sentindo mais leve e controlado, e fui com a toalha envolta na cintura até o quarto. Ouvi meu celular apitar e sentei na cama, lendo as mensagens que tinha ali.
Ele apareceu na porta e falou:
– Biel, eu to afim de dar um rolé hoje a noite, me empresta aquela sua blusa que eu gosto.
– Pega ai, ta no armário.
Eu disse, enquanto ele entrou e se dirigiu ao móvel. Fuçou, fuçou, mas não encontrou.
– Eu não to achando. Ta aqui mesmo, não ta lavando?
– Não, eu vi ela hoje mesmo. Ta ai.
– Então é melhor você pegar pra mim ou vou fazer um zona aqui.
Ele disse, ainda de cueca.
Aproximei-me do armário e comecei a procurar. A verdade é que ele já tinha feito uma bagunça e a blusa tinha caído atrás das outras. Peguei a peça de roupa e quando me virei para entrega-la a toalha caiu no chão, me deixando completamente nu.
Ele olhou para o meu corpo todo, de forma demorada, como se estivesse avaliando cada parte dele. Eu fiz menção de abaixar e pegar a toalha, mas quando me curvei dei cara com o pau dele estufado na cueca. Olhei para ele novamente, que olhava para mim, sério com a boca entreaberta, respirando de maneira ofegante. Ele olhou pros meus olhos e fixou-se na minha boca.
– Biel, eu…

Parte 13

Eu não sou gay…mas

Eu fiquei parado, olhando para os dois sem conseguir me mexer. Ele parecia tão entretido com aquela garota que nem notava que eu estava tão perto dele. Pude observar por minutos os sorrisos, as palavras trocadas tão intimamente, com uma mulher que eu não lembrava ter visto antes.

– Ei, vamos?
O Kadu falou me tirando do meu entorpecimento.
– Não, vamos embora.
– Hã? Ah não, Biel. Pára né? A gente já ta aqui.
– Vamos embora agora!
Eu disse firme, olhando mais uma vez pros dois. O Kadu olhou para a direção que eu estava olhando e então entendeu os meus motivos. Naquele mesmo instante, o Bernardo olhou para nós, fazendo morrer o sorriso em seus lábios. Ficamos sérios olhando um pro outro, até que virei as costas e fui embora em passos largos em direção ao estacionamento.
Cheguei o carro e coloquei as mãos no capô, apoiando meu corpo.
– Você ta bem?
O Kadu perguntou, colocando a mão no meu ombro.
– To. Só me tira daqui. Vamos embora.
Eu disse, entrando no carro. Não quis ir pra casa e então voltamos pro apê dele. Me joguei no sofá, me sentindo mal, reprisando aquela cena de poucos minutos atrás na minha cabeça.
– Que foda essa parada. Eu jurava que ele não ia.
Ele disse, parado na minha frente com os braços cruzados.
– Tudo bem, moramos na mesma cidade. Isso é inevitável. Foi mal, estraguei a sua noite.
– Quem disse? Já que a gente não vai curtir o show, vamos aproveitar por aqui mesmo.
Ele disse, colocando uma musica mais animada e trazendo uma garrafa de rum montila.
– Rum? Não é meio pesado, não?
– Larga a mão de ser bicha, Biel. Vai arregar?
– Não. Vai ver é isso que eu to precisando.
Eu disse, enquanto ele me jogou a garrafa. Rimos juntos e começamos com os shots. Foram um, dois, três, até que eu mesmo perdi a conta. Em pouco tempo a bebida fez efeito e estávamos rindo, relembrando coisas do passado.
Estávamos deitados no chão da sala, lado a lado, mas com os corpos opostos, só com as cabeças uma ao lado da outra.
– Porque você nunca se apaixonou por ninguém?
Eu perguntei, olhando pro teto, que às vezes insistia em rodar.
– Ah, porque eu acho bobeira. Acaba estragando tudo, sempre dá em sofrimento.
– Eu gosto de estar apaixonado, embora não me permita muito a isso. Você devia tentar qualquer dia.
– Com quem?
– Ah sei lá, Kadu. Aí é com você, né?
– Acho que você foi o que chegou mais perto disso. Quando a gente era moleque e eu tava me descobrindo… te via jogar bola e me acabava na punheta te imaginando. Acho que fiquei bem gamadinho em ti.
– Amor de bronha? Hahahahahahaha. Só você mesmo, Kadu.
– É ué, não posso falar que é que nem amor de pica, onde bate fica, porque eu nunca experimentei de fato, mas até hoje você povoa as minhas fantasias.
Virei a cabeça de lado, encontrando os olhos dele. Um arrepio percorreu meu corpo, enquanto ele também me olhava. Olhei pra sua boca e novamente pros seus olhos. Ele sorriu.
– Mas nem nas minhas fantasias mais profundas eu podia imaginar que você pudesse curtir algo assim.
– Eu também não imaginava que tudo isso fosse acontecer…
Eu respondi, ainda olhando nos olhos dele e para sua boca, que estava incrivelmente perto da minha.
– Será que isso faz com que possa ter esperança de realiza-las um dia?
Levantei rápido demais, cambaleando sem equilíbrio.
– Acho melhor eu tomar um banho, eu to tonto demais.
– Ei, calma Biel, não queria te assustar. Eu não vou te atacar, nem nada disso. Se rolar algo, vai ser naturalmente.
-E-Eu sei..
Eu disse sem graça, tentando manter o equilíbrio.
-Vai conseguir chegar no banheiro?
– Vou.
Eu disse rindo. Me enfiei debaixo da agua gelada, sentindo calafrios e deixando que ela me despertasse. “Que merda… eu não posso.” Pensava, esfregando o sabonete contra o meu peito. “Não posso por quê?” me perguntei. O Bernardo estava lá com uma vadia qualquer, rindo com a boca cheia de dentes, se divertindo enquanto eu estava num luto eterno. Todo mundo é adulto, responsável pelos seus atos e por que não?
– Kadu!
Eu gritei do banheiro. Em menos de um minuto ele apareceu na porta, mas com o rosto virado para não me olhar.
– O que foi? Tá passando mal?
– Vem aqui.
– Hã?
Ele perguntou, entrando um pouco no banheiro. Abri a porta de blindex do box e o puxei pela camisa, trazendo ele pra debaixo do chuveiro, beijando-o com fome. Ele se debateu de susto e de choque com a água gelada, mas logo correspondeu ao beijo que foi esfomeado e avassalador. Prendi-o contra a parede de azulejos, beijando ele de maneira faminta, as línguas enroscadas uma na outra, enquanto minhas mãos entravam por debaixo da sua camisa ensopada.
Desgrudei minha boca da dele, para pegar folego, olhando nos seus olhos que estavam arregalados e surpresos.
– Você ficou maluco?
– Pode ser. Quer que eu pare?
– Não..
Então eu o beijei novamente, me livrei da camisa molhada e comecei a desabotoar a calça, enquanto nossas bocas se devoravam. A agua nem parecia mais tão gelada, escorria gostosa pelos nossos corpos que estavam pegando fogo. Mordi seu queixo, beijando o seu pescoço, para depois esfregar minha barba rala por ele, mordiscando sua orelha.
Ele foi beijando meu tórax, descendo pela barriga, mordendo os meus gominhos, me causando arrepios. Pegou meu pau com a mão, punhetando-o para depois coloca-lo na boca e suga-lo com vontade. Joguei minha cabeça pra trás, mordendo os lábios e soltando um gemido rouco de satisfação. Ele chupou por alguns minutos, se demorando na cabeça para depois engolir até a base, mostrando o quanto era bom naquilo que fazia.
Puxei-o pelos cabelos, beijando a sua boca com sofreguidão, erguendo-o do chão, fazendo com que ele entrelaçasse as pernas na minha cintura, colando ele contra os azulejos em seguida. Sua mão tateou um creme de cabelo que ficava no parapeito da janela e senti-o lambuzar meu pau, colocando na entradinha do seu orifício. Soltei um pouco o peso dele para que eu o penetrasse em pé, pressionando ele contra a parede.
Ele fez uma careta de dor, espremendo os olhos, mas não pediu pra eu parar. Em pouco eu já estava completamente dentro dele, fazendo-o subir e descer no meu colo. Ele gemia no meu ouvido, apertando meus ombros com força. Fechei o chuveiro e fomos assim, engatados e encharcados até o quarto. Prensei-o contra parede e o fodi com força, sustentando seu peso nos meus braços, movimentando o quadril num ritmo frenético.
Quando meus braços adormeceram, coloquei-o no chão, virando-o de frente pra parede, colocando suas mãos espalmadas sobre a mesma e mais uma vez o penetrei. Mordia sua nuca, enquanto dava estocadas firmes, o fazendo gemer alto. Nossos corpos molhados, se chocavam um contra o outro, formando um poça de agua no chão. As pernas já estavam cansadas e bambas do esforço que estávamos fazendo, então eu praticamente o puxei e o joguei na cama.
Deitei por cima dele, já encaixando novamente, adentrando seu corpo e fodendo-o com força, cada vez mais rápido. Já não sabia se as gotas que caiam do meu cabelo eram do banho ou de suor, enquanto suas mãos arranhavam minhas costas, sua boca mordia meu ombro, entre gemidos e sussurros cada vez mais urgentes.
Senti seu corpo estremecer embaixo de mim, suas unhas cravarem-se nos meus braços e a sua boca soltou uma espécie de urro que ecoou pelo quarto. Senti seu cu apertar violentamente meu pau e os jatos do seu membro me atingirem a barriga, fazendo eu gozar em seguida, despejando uma boa quantidade de porra dentro dele. Meu corpo explodiu em diversos espasmos, me fazendo urrar de prazer e então cair pesadamente em cima dele.
Era possível sentir sua respiração ofegante e o coração acelerado, enquanto nossos corpos trêmulos tentavam se recompor. Com dificuldade, rolei pro lado dele, puxando o ar com dificuldade e mantendo os olhos fechados. Ficamos assim durante um tempo, só respirando e descansando, sem que nenhum dois conseguisse falar qualquer coisa.
– Caralho, que porra foi essa?! Nossa….acho que você quebrou minha costela.
Ele disse rindo, me fazendo rir também.
– Serio, o que foi que te deu?
Ele perguntou, virando-se de lado.
– Cansei de ser trouxa, sei lá…
– Ah, entendi, foi o troco.
Eu virei o rosto, olhando-o nos olhos.
– Kadu, eu fiz porque eu tava afim, mas não nego que teve um pouco disso também. Eu posso te dizer que minha cabeça tava aqui e não em outro lugar e fiz consciente. Vamos dizer que isso foi uma libertação.
– Pra mim é o que basta. Foi foda pra caralho, mais do que eu podia imaginar e quer saber? Eu to devendo uma pra aquele otário, porque quem saiu ganhando fui eu.
Ele disse rindo.
– Não ta chateado?
– Com o que?? Ta louco? Foi maravilhoso, foi… sei lá. Não vamos complicar as coisas, né? Se aconteceu dessa forma, é porque nós dois queríamos isso. Eu não sou nenhuma donzela inocente, eu quis isso e já fazia tempo. Eu sabia da situação de vocês dois e nunca quis me meter no meio.
– É que eu prezo muito a nossa amizade, eu não quero que nada atrapalhe isso.
– Relaxa, Biel. Não mudou nada. Sou eu lembra? Não tem essa de mimimi comigo. De boa, parça.
Ele disse rindo, me dando um soquinho no braço. Abracei ele e dormimos assim, nus e exaustos.
Acordei com uma dor de cabeça daquelas. Abri os olhos com dificuldade e aos poucos me dei conta onde eu estava. Ele ainda dormia ao meu lado, com uma expressão serena e tranquila. Sorri ao vê-lo assim, tão angelical. Me mexi, tentando não acorda-lo, mas foi em vão.
– Nossa.. anotou a placa?
Ele perguntou, abrindo só um olho.
– Hã?
– Do caminhão que passou por cima de mim…ah lembrei, foi você.
Ele disse rindo, me fazendo rir também. Era incrível como até de ressaca ele acordava de bom humor.
– Eu nada, foi aquela merda de rum que você arrumou.
Eu disse sentando na cama e esfregando o rosto. Levantei-me, fui até banheiro e tomei uma ducha pra acordar. Meu corpo estava todo marcado e a mordida no meu ombro era evidente. Sai do chuveiro me sentindo melhor e depois voltei pro quarto ainda sem roupa, pois as mesmas eu nem me lembrava onde tinha ido parar.
Ele estava deitado na cama, ainda sonolento e abriu os olhos ao me ouvir chegar.
– Nossa, você foi feito pra andar pelado sabia?
Fiquei vermelho na hora, pegando mais uma cueca nova dele e vestindo em seguida.
– Por sua causa eu não vou poder tirar a camisa tão cedo. Olha isso.
Eu disse mostrando as marcas pelo meu corpo. Ele sorriu, mordendo os lábios.
– Você nem tira a camisa. Já eu não to numa situação melhor que a sua. E ainda por cima, nossa… você fez um estrago que só agora eu vou sentir. Acho que se não fosse o bendito rum anestésico, eu não tinha aguentado a surra que você me deu.
Ele levantou, nu, mostrando as diversas marcas arroxeadas pelo corpo. Fiquei vermelho de novo, catando minha bermuda no chão para vesti-la. Ele foi pro banheiro e voltou minutos depois, com a toalha envolta na cintura. Começou a se vestir, numa naturalidade que era peculiar a ele. Olhei mais uma vez pro corpo dele e tive que admitir que ele era bem gostosinho.
– Sabe o que eu tava afim de fazer hoje?
Ele perguntou, terminando de vestir a bermuda.
– O que?
– Dar um rolé de skate. Bora?
– Pode ser, mas tenho que passar em casa. Dar um oi pra minha mãe e trocar de roupa.
A gente comeu alguma coisa para forrar o estomago e nesse momento eu percebi o quanto eu estava com fome. Não tinha me alimentado na noite anterior e ainda tivemos todo aquele gasto calórico durante a madrugada.
Chegamos na minha casa e eu entrei já procurando a minha mãe, mas só encontrei um bilhete em cima da mesa avisando que ela tinha ido ao supermercado. Aproveitei que não tinha ninguém na residência e tirei a blusa, jogando-a na máquina de lavar, como de costume.
Subimos pro meu quarto e quando abri a porta, dei de cara com o Bernardo deitado na minha cama. Me sobressaltei de susto, quase caindo por cima do Kadu que vinha logo atrás.
– O que você ta fazendo aqui?!
Eu perguntei assustado.
– Eu vim conversar com você, mas quando cheguei me dei conta que você tinha passado a noite fora de casa.
Ele falou, levantando furioso.
-Você não pode sair entrando na minha casa dessa maneira!
– Você passou a noite na casa dele?
– Ei, isso não é da sua conta! Sai daqui agora!
Ele olhou fuzilando o Kadu com olhar e então olhou mais uma vez pra mim. Só então começou a reparar no meu corpo, já que eu estava sem camisa.
– Perae, que porra é essa?! Que marcas são essas no seu corpo, Gabriel?!

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