Pet play, o fetiche do BDSM em que pessoas imitam animais

Durante a encenação, praticantes se caracterizam como animais específicos e até imitam sons para satisfazer seus donos; conheça o pet play

RESUMO

  • Pet play é um jogo de encenação em que uma pessoa é um animal e a outra interpreta o dono
  • Gatos, cachorros, cavalos e porcos podem ser encenados
  • Prática não é apenas sexual e pode ser realizada por até semanas
  • Apesar de envolver encenação de animais, prática não tem relação com zoofilia

Já se imaginou tendo relações sexuais enquanto interpreta o papel de um gato ou chegando em um bar rastejando de quatro e levado por uma coleira? Essas práticas existem e estão longe de ser algo considerado esquisito para quem é adepto do pet play. A prática, que está dentro do BDSM , consiste em um jogo de submissão em que uma pessoa imita um animal doméstico, enquanto outra desempenha a função de treinador ou dono.

Essa encenação pode durar horas, dias e até semanas. O pet imita os comportamentos de um animal pré-definido, seja filhote ou adulto, enquanto o dono ensina truques, faz elogios, dá recompensas ou pune por erros. Todos os atos dentro do pet play, até as punições, são consensuais entre as pessoas participantes.

O pet play pode ou não ser um jogo erótico. “No BDSM, as práticas não necessariamente envolvem sexo. Por ter conotação de brincadeira, disciplinadora e, às vezes, até mesmo terapêutica”, pontua. Como estabelecido dentro do BDSM, o jogo geralmente é baseado em uma hierarquia de comando, submissão e obediência.

Para aprimorar a prática, participantes podem utilizar apetrechos como coleiras, correntes, mordaças e chicotes. Nesse contexto, eles podem ser usados para fazer o adestramento do pet. Os desejos dos participantes podem ir de carinhos e lambidas até a palmadas corretivas e humilhações.

A ligação entre o pet play e as pessoas LGBTQIA+ é muito forte, tanto que há diversos integrantes que conseguem transparecer na prática e nos fetiches as próprias experiências. “Mesmo que uma parte da população veja a comunidade BDSM como excêntrica, existe uma maior probabilidade das pessoas LGBTQIA+ estarem bem com elas mesmas pela própria expressão de suas sexualidades”.

Pessoas que são vistas pela sociedade como “excêntricas” são mais propensas a ter uma saúde mental melhor do que as que não aceitam seus desejos. “Falar e expor suas fantasias é tanto uma transparência do que se deseja, quanto uma pré negociação com o consentimento da parceria para viver uma fantasia”.

Pet play pode ir além das quatro paredes

O pet play é uma prática que não é totalmente erótica e, com isso, ela acaba transbordando para a vida pública. As interpretações podem durar horas, dias e até semanas, dependendo do combinado entre as pessoas integrantes.

Os locais mais frequentados por adeptos do pet play são festas fetichistas e bares temáticos. “Nestes locais os donos e adestradores podem até servir petiscos no chão”. Encontros públicos e casais que optam por continuar a prática em shoppings, por exemplo, também existem. No caso de quem decide desempenhar funções corriqueiras, como ir às compras, o pet anda de quatro e pode usar coleira e focinheira.

O prazer causado pelo pet play

Rê conheceu o pet play em um concurso no Dominatrix Augusta, bar temático em São Paulo. “Fizeram um concurso de pet e eu participei, ainda sem perceber a questão de pet ser de estimação. Fui de tigresa”, lembra.

Rê conta que esse primeiro contato foi interessante para colocar para fora seu lado animal. Um ano depois, começou a praticar. “O pet play me proporciona a possibilidade de viver o meu lado instintivo, sem travas sociais”.

No geral, adeptos à prática sentem prazer ao poder liberar a própria fantasia, desde que isso seja feito de forma consensual e que respeite o limite entre a saúde e o mal estar. “Se pararmos para pensar, a maioria das pessoas omite, reprime ou sabota os desejos sexuais. Entretanto, cada pessoa tem na individualidade e em seu universo de desejos a capacidade de se soltar um pouco mais e até mesmo se libertar das amarras da vida cotidiana durante o sexo”.

Tem-se a ideia de que praticantes de pet play (e de qualquer outra prática sexual não convencional) são pessoas “esquisitas” ou “perigosas”. Na verdade, elas podem ser de qualquer tipo. “O que acontece ao chegar em casa é que cada um assume seu novo papel, retirando a pressão e libertando-se dos pudores e preconceitos. Isso pode aumentar significativamente tanto a excitação sexual como tornar a vida mais leve e divertida no dia a dia”.

“A brincadeira pode ser uma atividade muito divertida quando as pessoas mergulham de cabeça na interpretação. É uma oportunidade de tirarem uma folga da vida comum e permite também a inversão de papel assumido para a sociedade. É comum que pessoas em posição social de liderança e autoridade se submetam aos comandos de alguém durante a brincadeira. Isso significa tirar o peso e estresse em ser alguém preso a uma rotina, virando durante alguns momentos um bichinho inocente e brincalhão”.

É necessário observar como esses desejos têm sido explorados na prática. Caso a pessoa praticante fique muito dependente ao fetiche e só consiga sentir prazer dessa forma, pode ser importante procurar um especialista. “Fantasias são imagens mentais que despertam o desejo e erotismo da pessoa e deixam de ser saudáveis quando se tornam indispensáveis para o prazer”, justifica.

Rê recomenda que, antes de praticar, as pessoas pesquisem sobre o pet play e sobre BDSM em geral para não cair em ciladas. “É preciso ter muito cuidado em qualquer situação. Gente ruim existe em todo lugar”, adverte.

Pet play não tem a ver com zoofilia

As práticas sexuais não convencionais, principalmente as que são englobadas no BDSM, tendem a ser vistas com maus olhos e de forma equivocada por quem está de fora desse nicho. Um dos principais mal-entendidos ligados ao pet play é de que esse fetiche está diretamente ligado à zoofilia; ou seja, sentir desejo por animais.

“Na prática, o pet play não possui qualquer relação com isso e é totalmente abominável entre os praticantes”. Rê complementa que, por mais que a prática envolva a interpretação de animais, quem está ali ainda é um ser humano capaz de fazer escolhas e ciente do que está acontecendo. “Por mais que se assemelhe ao animal em comportamento, não se parece fisicamente. Não tem nem como confundir. Para mim, isso é coisa de gente que não vê nada além de sexo hétero e influência religiosa demais”, rebate.

Quando o ato não tem relação com o desejo sexual, pessoas de fora da prática podem tentar ridicularizar as cenas e os desejos das pessoas envolvidas. No entanto, ao deixar os julgamentos de lado, a prática pode ser vista como amigável e até mesmo fofa.

“Muitas pessoas acham interessante porque já estão mais acostumadas com a questão do cosplay, que consiste em se fantasiar e interpretar personagens de filmes e histórias em quadrinhos. Outras ainda precisam de uma boa dose de educação e imaginação”.

Publicado por Mesonhot

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