Eu já perdi as contas de quantas vezes escrevi mentalmente esta declaração, hoje mais uma vez eu perdi o sono, você entende a importância de expor a sua história quando se depara com a história de tantas outras mulheres que passaram pelo mesmo, e que continuaram a passar por que somos julgadas o tempo todo inclusive como sexo frágil.
Aos 5, 6 anos sofri meus primeiros abuso, e isso me tornou uma pessoa revoltada, introspectiva, desconfiada, me fez fazer escolhas erradas, isso mudou minha história! Mas eu não entendia nada disto até passar por uma terapia com mais de 30 anos. O ciclo é o mesmo, você sente vergonha, tem dúvidas, se culpa, tem medo, evita encarar a realidade, se esconde e não sabe a quem recorrer. O primeiro sentimento é de que você estara se expondo se contar, será julgada, culparão seus pais( que aliás nada tem haver com tudo isso, se existe algum culpado é o abusador)
Aos 5 ou 6 anos eu achava que havia provocado aquilo, vocês devem estar se perguntando se houve penetração… Sim as pessoas acham que abuso é adentrar a carne. Não eles adentram a sua alma. Algumas vezes como no meu caso o abuso vai além do psicológico, ele te toca, sem deixar marcas que os outros possam ver, ele tira sua inocência.
Durante minha infância e adolescência eu me sentia diferente, eu achava que era a única responsável por aquele ato, tinha vergonha de contar, eu tinha pensamento e sentimentos que nenhuma criança deveria ter. Eu queria ser forte, eu queria esquecer, sair dali e eu fui deixando aos poucos esta história silenciada dentro de mim, eu não falava dela, eu engolia o “choro” .
Os anos foram passando e as feridas não fecharam, pelo contrário elas estavam me adoecendo, eu precisava me curar. Na primeira vez que consegui falar na terapia sobre eu chorei tanto que achei que não iria mais parar, e ao mesmo tempo que eu falava palavras que nem eu mesma sabia que estavam ali guardadas e me faziam Tao mal, eu ainda ficava me questionando, fui eu a culpada?
E então a uns 3 anos, quando nos reencontramos eu e a outra vítima eu me dei por conta de que tudo aquilo foi real e que eu havia sobrevivido. Venho a pelo menos 2 anos ensaiando para falar sobre. Já não tenho medo dos julgamentos, eu já sofri tantos, as pessoas falam de você seja para o bem ou para o mal, elas acham que você é forte o tempo todo. Mas só para lembrar eu sou humana. Cheia de sentimentos e muitas vezes eu sangro, e eu choro. Falar disto não me faz uma vítima, me faz uma vitoriosa! Eu só quero que entendam uma coisa, cuidem das suas crianças, mas senão conseguirem não se culpem, o mal sempre esteve e estará no Mundo. Ou você aprende a bater ou você aprende a correr.
Este sentimento de falar sobre renasce a cada reportagem que vejo sobre abusadores e o mal que causam as suas vítimas, e o quanto se calar pode ser uma forma de consentir que isso continue acontecendo.
Quero deixar claro aqui, que estou bem! Que me dói demais ver como as mulheres são julgadas e principalmente por outras mulheres.
Quero pedir perdão aos meus pais por expor a minha história em público, mas acreditem vocês não foram culpados! Mas eu me sinto na obrigação em alertar que isso acontece sim, todos os dias e em muitos lares indiferente aos cuidados, infelizmente!